El Comercio De La República - Banco Master liquidado: FGC?

Lima -

Banco Master liquidado: FGC?




Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A. e de outras três empresas do conglomerado, encerrando as atividades do grupo e retirando‑o do Sistema Financeiro Nacional. A decisão foi tomada em caráter emergencial diante de uma crise de liquidez, de um deterioramento acentuado das finanças e de infrações graves às normas do sistema financeiro. O órgão regulador nomeou um liquidante para administrar a instituição, atender credores e vender ativos, afastando a diretoria e assumindo integralmente a gestão.

A liquidação marca o fim de uma trajetória meteórica. Fundado por Daniel Vorcaro, o banco havia crescido com uma estratégia agressiva de captação via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e outros produtos de renda fixa ofertados em plataformas digitais, pagando taxas bem acima do mercado. Esse crescimento acelerado gerou exposição elevada, resultando em pressões de liquidez que acabaram por se transformar em insolvência. Em 2024, investigações apontaram a fabricação de carteiras de crédito sem lastro que teriam sido vendidas ao Banco de Brasília, o que levou a uma operação conjunta do Ministério Público Federal e da Polícia Federal chamada de Compliance Zero.

Prisão do controlador
Na noite de 17 de novembro, Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos quando embarcava para Dubai. A prisão ocorreu no âmbito da operação que apura a emissão de carteiras de crédito fraudulentas, estimadas em cerca de R$ 12 bilhões, que teriam sido negociadas com outra instituição financeira. Além da prisão, houve busca e apreensão de bens ligados ao banco e de seu controlador. A defesa do empresário nega a existência de fraude, afirma que os títulos foram devidamente registrados e sustenta que a liquidação do banco foi precipitada. De acordo com os advogados, Vorcaro viajava para negociar a venda da instituição a um consórcio de investidores estrangeiros, operação que havia sido anunciada no dia anterior e envolveria uma capitalização de R$ 3 bilhões.

Independentemente da discussão judicial, a prisão do controlador e a intervenção marcaram o fim da tentativa de venda e reforçaram a decisão do Banco Central de liquidar o Master. A mesma operação resultou no afastamento do presidente do Banco de Brasília por decisão judicial. Para os clientes e credores do Master, a prioridade agora é entender como recuperar os valores aplicados nos produtos do banco.

Ativação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)
A liquidação de uma instituição financeira aciona automaticamente o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), entidade privada financiada por contribuições mensais dos bancos e autorizada a indenizar depositantes e investidores quando uma instituição é liquidada. Criado em 1995 para preservar a estabilidade do sistema financeiro, o FGC cobre depósitos em conta corrente, poupança, CDBs, RDBs, LCIs, LCAs, letras de câmbio e outros títulos emitidos por bancos até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição. Há também uma modalidade especial (DPGE) que garante valores superiores, chegando a R$ 40 milhões por titular, mas esse produto é menos comum.

Segundo levantamento preliminar do FGC, cerca de 1,6 milhão de credores do Banco Master possuem depósitos e investimentos elegíveis ao pagamento da garantia, somando aproximadamente R$ 41 bilhões. Esse volume corresponde a mais de um terço dos recursos líquidos do fundo, estimados em R$ 122 bilhões, e representa a maior operação de ressarcimento da história recente do FGC. Mesmo assim, o presidente do fundo afirmou que “todos os que cumprirem os requisitos serão integralmente reembolsados” e assegurou que a situação reforça a confiança no sistema.

Como solicitar a garantia
Os pagamentos do FGC não são imediatos. Após decretada a liquidação, o Banco Central nomeia um liquidante que deverá montar uma lista consolidada de credores, agrupando cada investimento pelo CPF ou CNPJ do titular. Esse processo costuma levar cerca de 30 dias úteis. Somente depois de encaminhada a relação é que o FGC libera o cadastro para solicitação dos ressarcimentos.

Para pessoas físicas, o procedimento deverá ser feito pelo aplicativo oficial do FGC (disponível para Android e iOS). São exigidos cadastro inicial com dados pessoais, validação de biometria e envio de documentos. Após a habilitação, o credor assina digitalmente o termo de sub-rogação (transferindo os direitos do crédito para o FGC) e indica uma conta bancária de mesma titularidade para receber o valor. Uma vez concluída a análise, o pagamento é realizado por meio de PIX ou TED em até dois dias úteis.

Para pessoas jurídicas, o processo ocorre pelo Portal Investidores no site do FGC, onde o representante legal faz o cadastro e aguarda as instruções. Em todos os casos, o valor pago é atualizado até a data da liquidação e inclui correção monetária.

Resumo das etapas para requerer o ressarcimento

-  Aguardar a lista de credores: o liquidante envia ao FGC a relação completa de investidores habilitados, procedimento que leva em média 30 dias.

-  Cadastro no aplicativo ou portal: após a liberação do FGC, o investidor se cadastra no aplicativo (pessoa física) ou no Portal Investidores (pessoa jurídica), fornecendo dados pessoais e bancários.

-  Validação e assinatura digital: o sistema exige biometria, envio de documento de identificação e assinatura eletrônica do termo de sub-rogação.

-  Recebimento: após aprovação, o pagamento é efetuado em até dois dias úteis por PIX ou TED.

-  Cuidados com golpes

Especialistas em segurança digital alertam que, diante do volume de recursos a serem devolvidos, golpistas têm criado páginas falsas, links maliciosos e aplicativos fraudulentos que prometem liberação imediata da garantia. Esses golpes visam capturar dados pessoais, instalar malware ou oferecer adiantamentos com juros abusivos. O FGC enfatiza que:

Não utiliza intermediários, não cobra taxas e não oferece antecipação de pagamentos. Qualquer anúncio que prometa liquidez instantânea é fraude.

-  A garantia é automática e deve ser solicitada apenas pelo app ou site oficial.

-  Os credores nunca devem fornecer senhas, códigos de autenticação ou dados bancários a terceiros e devem checar cuidadosamente links e endereços de sites.

-  A verificação de informações em canais oficiais e a ativação de autenticação em dois fatores ajudam a prevenir fraudes.

Quem fica de fora da cobertura
A garantia do FGC possui limites. Valores acima de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ não são cobertos e integram a massa falida a ser liquidada. Esses investidores tornam‑se credores quirografários, devendo aguardar a apuração do patrimônio do banco e a realização de leilões de ativos. O mesmo ocorre com letras financeiras, debêntures e outros títulos de mercado de capitais, que não entram na proteção do FGC. Em casos de operações em derivativos ou empréstimo de valores mobiliários, o investidor deverá procurar o liquidante para encerrar posições, conforme orientado pelo Banco Central.

Pessoas com saldos em conta‑corrente ou aplicações acima do limite garantido ainda podem buscar ressarcimento parcial por meio de ações judiciais, mas esse processo costuma ser lento. Especialistas recordam que há casos de instituições liquidada no início da década passada cujos clientes aguardam há anos para receber valores que excediam o teto da garantia.

Pressão sobre o sistema financeiro
O caso Master é considerado um teste de estresse para o arcabouço de resolução de crises no Brasil. A combinação de oferta de CDBs de alto rendimento em plataformas digitais e crescimento rápido em um ambiente de juros elevados atraiu milhares de investidores e concentrou riscos significativos. A necessidade de pagar até R$ 41 bilhões aos credores elegíveis pode exigir aportes adicionais de bancos ao FGC, mecanismo já previsto na legislação.

Apesar da dimensão sem precedentes, analistas ressaltam que o FGC possui reservas robustas e mecanismos de financiamento suficientes para cobrir a garantia sem utilizar recursos públicos. O modelo brasileiro, baseado em contribuições privadas do setor bancário, foi criado após a crise dos anos 1990 para evitar corridas bancárias e preservar a confiança do público. Em quase 30 anos de atuação, o fundo já indenizou mais de quatro milhões de clientes e desembolsou mais de R$ 6 bilhões em valores históricos.

Perspectivas e desdobramentos
Enquanto o processo de liquidação avança, outras consequências começam a surgir. Grandes credores institucionais, como fundos de pensão e empresas, que compraram letras financeiras e bills emitidas pelo Master, não contarão com a cobertura do FGC e terão de negociar seus créditos diretamente com o liquidante. O mercado monitora ainda possíveis repercussões para a aquisição de ativos pelo Banco de Brasília e para o próprio sistema de distribuição de produtos financeiros, que poderá passar por ajustes regulatórios para limitar riscos concentrados.

Do ponto de vista judicial, a defesa de Daniel Vorcaro pretende contestar tanto a prisão quanto a liquidação, alegando inexistência de fraude e irregularidades no processo de intervenção. O Judiciário, porém, já negou um habeas corpus e manteve o empresário preso preventivamente enquanto prossegue a investigação.

O que os clientes devem fazer agora
Para os investidores e correntistas do Banco Master, a recomendação central é aguardar a publicação da lista de credores pelo liquidante e, somente então, iniciar o cadastro no aplicativo oficial do FGC. É importante manter documentos pessoais atualizados, verificar periodicamente os comunicados do Banco Central e do FGC e desconfiar de qualquer oferta de facilitação. Aqueles que têm valores acima do limite garantido devem buscar orientação jurídica para acompanhar o processo de liquidação e avaliar possibilidades de recuperação futura.

A crise do Master evidencia a importância da diversificação de investimentos e da atenção às garantias oferecidas pelos emissores. Apesar do impacto significativo, a existência do Fundo Garantidor de Créditos e a pronta atuação do Banco Central demonstram a capacidade do sistema financeiro de proteger os pequenos investidores e mitigar riscos sistêmicos.

 



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Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Conflito no Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio entrou numa fase em que as linhas entre guerra local e choque regional se tornam cada vez mais ténues. O que começou como um epicentro de violência em Gaza, com ondas de repercussões políticas e humanitárias, evoluiu para um tabuleiro mais amplo: fronteiras tensas a norte de Israel, confrontos indiretos envolvendo aliados e milícias, disputas de dissuasão entre Estados e uma dimensão económica que já se sente fora da região, sobretudo na energia e nas rotas marítimas.Na leitura de especialistas em segurança internacional, o elemento decisivo do momento não é apenas a intensidade dos combates, mas a soma de frentes simultâneas e interligadas. Cada frente aumenta o risco de “efeitos em cascata”: uma escalada num ponto pode provocar resposta noutro; um incidente marítimo pode traduzir-se em pressão interna sobre governos; um impasse diplomático pode prolongar a crise humanitária e radicalizar posições.Gaza: a ferida aberta e o dilema pós-guerraGaza continua a ser o centro simbólico e operacional do conflito. Mesmo em períodos de pausa negociada ou cessar-fogo parcial, o terreno permanece instável: há acusações recíprocas de violações, episódios de violência e um ambiente político em que a confiança é mínima. Para a segurança internacional, isto cria dois problemas paralelos.O primeiro é humanitário: a degradação prolongada das condições de vida alimenta desespero, deslocações, doenças, colapso de serviços e uma pressão constante sobre organizações humanitárias. O segundo é estratégico: sem uma solução política credível para governação, segurança e reconstrução, o conflito tende a manter-se em ciclos, com espaço para grupos armados se reorganizarem e para a violência se renovar.Do ponto de vista do equilíbrio regional, a questão central é: quem assegura a ordem e com que legitimidade? A “arquitetura do dia seguinte” — forças de segurança, administração, controlo de fronteiras, circulação de ajuda e reabilitação de infraestruturas — é um tema tão sensível quanto a própria guerra. E é nesse vazio, alertam analistas, que nascem as escaladas seguintes.Norte de Israel e Líbano: o risco de alargamento por cálculo ou acidenteNo eixo Israel–Líbano, a tensão é marcada por um padrão perigoso: ataques, retaliações, deslocações internas e ameaças que criam ambiente de pré-guerra. Mesmo quando nenhum dos lados declara querer uma guerra total, a combinação de capacidades militares, pressões domésticas e lógica de dissuasão pode gerar uma escalada “não planeada”.Especialistas sublinham que guerras regionais nem sempre começam por decisão formal: podem começar por uma sequência de decisões táticas, mal-entendidos ou resposta excessiva a um ataque. A presença de atores armados com autonomia operacional e a proximidade de zonas urbanas aumentam a probabilidade de erros com consequências estratégicas.Ao mesmo tempo, potências externas tentam conter a escalada com mensagens públicas e canais discretos de comunicação, procurando evitar um cenário em que um conflito fronteiriço se transforme numa guerra aberta com impacto direto em vários países.Irão, dissuasão e a guerra nas “zonas cinzentas”Um dos elementos mais sensíveis desta etapa é o confronto indireto — e por vezes direto — envolvendo o Irão e adversários regionais, com implicações para aliados e para a presença militar externa na região. Para a segurança internacional, trata-se de um jogo de limites: cada parte procura impor custos e demonstrar capacidade, mas tenta evitar um ponto de não retorno.O Irão tem apostado historicamente numa combinação de influência regional, redes de aliados e capacidade de pressão assimétrica. Já os seus adversários procuram neutralizar ameaças, reduzir capacidade militar e impedir que a crise se traduza numa mudança de equilíbrio duradoura. O problema é que, quando a lógica de dissuasão falha — ou quando a perceção pública exige uma resposta “mais dura” — abre-se espaço para uma escalada direta.Nesta fase, o mundo acompanha com particular atenção a dimensão marítima e energética: qualquer perturbação prolongada em corredores estratégicos pode ter impacto imediato em preços, seguros, cadeias logísticas e inflação.Mar Vermelho e rotas marítimas: o conflito chega à economia globalA pressão sobre rotas marítimas tornou-se um dos sinais mais claros de como a crise já ultrapassou a geografia do combate terrestre. A instabilidade no Mar Vermelho e em corredores ligados ao comércio global eleva custos e atrasa entregas. Para empresas e governos, o tema deixou de ser apenas “segurança regional” para se tornar segurança económica.Quando ataques ou ameaças aumentam o risco para navios comerciais, cresce o desvio de rotas e a escalada de prémios de seguro. Isso pressiona combustíveis, transporte e preço final de bens. Especialistas salientam que este tipo de pressão funciona como multiplicador de crise: mesmo países distantes podem sentir efeitos, o que aumenta a urgência política por soluções — mas nem sempre com consenso sobre qual solução.Estreitos e energia: quando a geopolítica toca o quotidianoA energia é o nervo exposto do sistema internacional em tempos de guerra regional. Qualquer ameaça, interrupção ou incerteza em corredores críticos pode provocar movimentos bruscos no mercado. Mesmo sem uma interrupção total, basta um período prolongado de risco elevado para encarecer transporte e alimentar volatilidade.Para analistas de segurança, a questão vai além do preço do barril: trata-se de previsibilidade. Investimento, planeamento industrial, reservas estratégicas e políticas internas ficam condicionados quando o mercado entra em modo de choque. A instabilidade energética também tem reflexos políticos: governos enfrentam pressão social, e decisões externas podem ser afetadas por considerações de custo interno.Diplomacia: entre a urgência humanitária e a falta de confiançaEm paralelo, a diplomacia enfrenta o desafio clássico de conflitos prolongados: negociar quando as partes acreditam que ainda podem ganhar mais pela força do que pela mesa. A existência de propostas e iniciativas não significa, por si só, proximidade de paz. O ponto crítico é o mecanismo de implementação: quem garante, quem fiscaliza, que incentivos e penalizações existem, e como se reduz o risco de colapso do acordo.As organizações internacionais concentram esforços em ajuda humanitária, proteção de civis e defesa do direito internacional. No entanto, a eficácia no terreno depende de acesso, segurança e coordenação, frequentemente dificultadas por combates, bloqueios, desconfiança e disputas políticas.Três cenários de curto prazoEspecialistas costumam trabalhar com cenários para orientar governos, empresas e organizações humanitárias. No curto prazo, três caminhos concentram maior probabilidade.1. Estabilização frágil: pausas de combate, algum fluxo de ajuda, negociações intermitentes, mas sem solução política sólida — cenário com risco alto de recaída.2. Escalada regional controlada: aumento de confrontos indiretos e episódios de maior alcance, mas ainda sem guerra total — cenário de custos económicos elevados e insegurança marítima persistente.3. Rutura e guerra ampliada: incidente catalisador ou decisão política que abre uma frente de grande escala — cenário de choque energético, deslocações massivas e pressão internacional extrema.O que observar: sinais de escalada e sinais de contençãoPara antecipar a direção do conflito, analistas recomendam observar alguns indicadores: intensidade e frequência de ataques em frentes secundárias, mudanças no posicionamento militar de potências externas, deterioração rápida de condições humanitárias, e sobretudo decisões políticas que indiquem ausência de espaço para compromisso.Do lado da contenção, sinais incluem retomada de canais de negociação, mecanismos operacionais para ajuda e reconstrução, garantias verificáveis de cessar-fogo e passos concretos para reduzir tensões nas rotas marítimas.Conclusão: segurança regional, impacto globalO conflito no Oriente Médio já não pode ser interpretado como crise isolada. A combinação de guerra terrestre, confronto indireto entre Estados, pressão marítima e risco energético transformou a situação num teste à gestão internacional de crises. A estabilidade dependerá menos de declarações e mais de medidas verificáveis: proteção de civis, acesso humanitário sustentado, acordos com mecanismos de implementação e redução concreta de incentivos à escalada.Para a segurança internacional, o desafio é duplo: conter o pior no imediato e, ao mesmo tempo, construir condições para que o conflito não se reproduza em ciclos. Sem uma base política e institucional minimamente funcional, a região permanece exposta — e com ela o sistema económico e de segurança global.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.