El Comercio De La República - Petrodólar e pressão política

Lima -

Petrodólar e pressão política




O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã reacendeu a preocupação com a fragilidade do chamado petrodólar. Desde a década de 1970, boa parte das transações petrolíferas foi denominada em dólares, permitindo aos Estados Unidos reciclar os superávits dos exportadores em títulos do Tesouro. Analistas recordam que essa aliança se sustentava em três pilares: dependência norte‑americana do petróleo do Golfo, determinação dos países do Golfo em precificar o barril em dólares e a proteção militar norte‑americana à região. Esses pilares vêm se desgastando. Hoje, os EUA são praticamente autossuficientes em energia e os países do Golfo questionam a capacidade de Washington de lhes garantir segurança. As reservas de divisas mostram uma tendência lenta de diversificação: o FMI apurou que a participação do dólar nas reservas globais recuou para 56,9 % no terceiro trimestre de 2025. Embora ainda não exista uma alternativa credível, China e Irã testam pagamentos em iuanes, intensificando a “dedolarização”.

A escalada na região também expôs vulnerabilidades logísticas. A colocação de minas navais e ataques a navios obrigam as companhias de transporte a desviar rotas, elevando custos e prazos. Tweets imprevisíveis do ex‑presidente Donald Trump sobre o conflito derrubaram o preço do petróleo em questão de minutos, alimentando suspeitas de manipulação de mercado. Investidores reclamam que volatilidade extrema dificulta coberturas e prejudica mercados emergentes dependentes de importações de combustíveis. Entretanto, especialistas lembram que, apesar das pressões, países como a Arábia Saudita continuam vendendo a maior parte de seu petróleo em dólares e que o endividamento norte‑americano — mais de US$ 39 trilhões — torna essencial o fluxo de petrodólares para financiar déficits.

Diesel e alimentos: o elo frágil do Brasil
Na esteira da guerra e do bloqueio marítimo, o preço internacional do diesel disparou, expondo a fragilidade do abastecimento brasileiro. A Petrobras, responsável por mais de 80 % da produção, vinha mantendo os preços internos abaixo da paridade de importação para conter a inflação. O atraso nos reajustes, porém, inibiu importadores privados e refinarias independentes, que reduziram compras por temer prejuízos. Entidades do setor alertaram que a defasagem atingiu R$ 3 por litro e que o diesel tipo B, vendido nos postos e misturado ao biodiesel, não se beneficiava totalmente das desonerações. O resultado foi uma rápida alta de preços nas distribuidoras, que passaram de cerca de R$ 5,74 para R$ 7,22 por litro em poucas semanas.

O governo reagiu com um pacote fiscal: zerou a contribuição social (PIS/Cofins) sobre o diesel, criou um subsídio de R$ 0,32 por litro e elevou a taxação de exportações de petróleo para financiar a medida. Também instalou uma sala de monitoramento que acompanha a oferta e a demanda a cada 48 horas, mobilizando Procons e agências de fiscalização para coibir abusos. A Petrobras realizou leilões extraordinários para vender diesel a distribuidores do Rio Grande do Sul e operou refinarias acima de sua capacidade, adiando manutenções. Mesmo assim, transportadores e agricultores manifestam temor de que a escassez se agrave durante a safra de soja e milho, elevando custos logísticos e pressionando os preços dos alimentos. Para eles, o conflito no Golfo expõe a dependência brasileira de importações e reforça a necessidade de diversificar matrizes energéticas.

Fundos restritos: teste para o crédito privado
Enquanto o petróleo abala as cadeias produtivas, outra tensão surge nos mercados financeiros. Fundos de crédito privado norte‑americanos, conhecidos como business development companies (BDCs), tornaram‑se populares por prometerem rendimentos altos e liquidez trimestral. O ambiente de incerteza, contudo, levou investidores a solicitar resgates maciços. O Ares Strategic Income Fund, com US$ 22,7 bilhões em ativos, recebeu pedidos para sacar 11,6 % de suas cotas; para preservar a carteira, a gestora limitou os resgates a 5 %, alinhando‑se a rivais como Apollo e BlackRock. Poucos dias antes, a Apollo Debt Solutions já havia adotado a mesma trava após solicitações equivalentes a 11,2 % das cotas. Esses bloqueios visam evitar uma corrida que poderia forçar a venda acelerada de ativos e prejudicar os investidores remanescentes.

Consultores destacam que os BDCs são instrumentos concebidos para investimentos de longo prazo e que os participantes devem estar preparados para enfrentar períodos de iliquidez. Entretanto, a necessidade de impor limites indica uma degradação nas condições de crédito corporativo, em especial nos setores mais arriscados. Comentários de analistas financeiros sugerem que alguns investidores migraram para esses fundos em busca de retorno fácil, sem compreender os riscos de liquidez. Agora, muitos questionam a transparência das carteiras e a disciplina de concessão de crédito, temendo calotes em cadeia.

Interdependência perigosa e perspectivas
A confluência desses três fatores — a disputa geopolítica que ameaça a primazia do dólar, a vulnerabilidade da matriz energética brasileira e a fragilidade dos fundos de crédito privado — evidencia a interdependência entre geopolítica, energia e finanças. Comentadores em fóruns de economia lamentam que o Brasil, apesar de ser grande produtor de petróleo, esteja exposto a choques externos por falta de refinarias e políticas eficientes. Outros destacam que a perda de credibilidade do petrodólar pode ampliar o poder de países como China e Rússia, estimulando pagamentos em moedas alternativas. Investidores mais céticos veem na crise um argumento para buscar proteção em ativos descentralizados, como o bitcoin, ou em commodities físicas.

No curto prazo, o equilíbrio do mercado de petróleo dependerá de um eventual cessar‑fogo e da capacidade de manter o Estreito de Ormuz aberto à navegação. O Brasil, por sua vez, precisará conciliar política de preços da Petrobras, subsídios temporários e incentivos à produção de biocombustíveis para evitar desabastecimento. Já os fundos de crédito privado terão de reforçar a comunicação com os cotistas e diversificar suas carteiras para recuperar a confiança. Em tempos de incerteza, compreender as conexões entre geopolitica, energia e finanças torna‑se crucial para governos, empresas e consumidores.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

SpaceX: Aposta ou armadilha?

A SpaceX, empresa de foguetes e satélites criada por Elon Musk, prepara‑se para se tornar pública em 2026. Em abril de 2026, várias notícias indicavam que a empresa submeteu à Securities and Exchange Commission um registo confidencial para uma oferta pública inicial (IPO). Os seus assessores estão a sondar investidores com uma avaliação superior a 2 bilhões de milhões de dólares e planeiam levantar cerca de 75 mil milhões de dólares, um montante que supera o recorde de 2019 da petrolífera Saudi Aramco. Este valor foi construído após a fusão da SpaceX com a xAI, a startup de inteligência artificial de Musk, que valorizou a empresa espacial em cerca de 1 bilhão de milhões e a xAI em 250 mil milhões. O novo conglomerado pretende instalar centros de dados em órbita abastecidos por satélites, uma ideia que Musk apresenta como solução para limitações de energia e água na Terra.O tamanho da operação é incomparável. Analistas da Reuters notam que, ao preço especulado, o grupo seria avaliado a mais de 100 vezes o seu volume de negócios, já que a SpaceX gerou cerca de 15 a 16 mil milhões de dólares de receitas em 2025, com lucro de 8 mil milhões de dólares. A base dessa avaliação é Starlink, a rede de satélites de banda larga com mais de 9 milhões de assinantes, que representa entre 50 % e 80 % das receitas e oferece lucro recorrente. A empresa também depende pouco de contratos governamentais: a NASA contribuiu com apenas cerca de 5 % das receitas em 2025.Sonhos ambiciosos e realidade técnicaA narrativa de Musk é sedutora. A SpaceX lidera o mercado de lançamentos com os foguetes Falcon 9 e Falcon Heavy, e desenvolve o Starship, um sistema completamente reutilizável que poderá levar carga massiva e tripulações à Lua e a Marte. Depois de vários voos fracassados em 2025, o décimo e o 11.º testes suborbitais realizaram aterragens e reentradas bem‑sucedidas, validando alterações no escudo térmico e na arquitectura de motores. Este avanço dá credibilidade à promessa de reduzir drasticamente o custo por quilograma em órbita – condição essencial para lançar milhares de satélites e eventualmente levar data centers ao espaço.Ao mesmo tempo, especialistas alertam para desafios ainda não resolvidos. Um estudo liderado pela NASA em 2025 advertiu que o aumento vertiginoso de satélites em órbita baixa poderá afetar até 96 % das imagens de alguns telescópios espaciais devido a rastros luminosos. Em junho de 2025, astrónomos da África do Sul pediram restrições legais porque a constelação da Starlink provoca interferências nos radio‑telescópios. Após uma anomalia que provocou a explosão de um satélite, a SpaceX anunciou planos para reduzir a altitude orbital de cerca de 550 km para 480 km, alegando que isso diminui o risco de colisões. Ainda assim, em dezembro de 2025 a empresa perdeu contacto com um satélite, gerando dezenas de pedaços de detritos e destacando a necessidade de uma gestão mais coordenada do tráfego espacial.Os projectos de Musk para centros de dados orbitais também suscitam cepticismo. Analistas recordam que a Microsoft testou um centro de dados submarino em 2015 e abandonou o projecto por falta de clientes e custos elevados. Peritos em infra‑estruturas advertem que enviar data centers para o espaço implica módulos caros, dificilmente reparáveis e com desafios de arrefecimento. Estudos estimam que seriam necessários três mil lançamentos de Starship por ano para colocar um milhão de satélites‑servidor, e que o investimento total atingiria os triliões de dólares. Um investigador comparou a proposta a “fugir dos problemas da Terra para criar desafios ainda maiores”.Governança e geopolíticaO governo norte‑americano tem recorrido cada vez mais a empresas privadas para missões civis e militares. A SpaceX recebeu contratos importantes da NASA, como o transporte de astronautas para a Estação Espacial Internacional e o desenvolvimento de um módulo lunar para o programa Artemis. Essa integração público‑privada fortalece a empresa, mas também realça vulnerabilidades. Em setembro de 2022, durante a contra‑ofensiva ucraniana, relatos indicam que Musk desligou serviços da Starlink na região, causando falhas de comunicação e levantando questões sobre o poder de um CEO privado em conflitos militares. Além disso, a dependência de contratos governamentais e de licenças internacionais expõe a empresa a riscos políticos e regulatórios.A fusão com a xAI e a exigência de que bancos envolvidos no IPO adquiram assinaturas do chatbot Grok evidenciam o grau de integração entre as empresas de Musk. Analistas sugerem que o conglomerado poderá adoptar uma estrutura accionista de classes múltiplas para manter o controlo nas mãos do fundador, o que diminui a influência de pequenos investidores. Também se fala numa alocação de 30 % das ações a investidores de retalho, uma estratégia que, segundo alguns especialistas, visa capitalizar a popularidade de Musk junto do público.O debate entre investidoresO entusiasmo em torno do IPO reflete‑se em todo o sector aeroespacial. Na semana em que a notícia do registo confidencial foi divulgada, as ações de empresas como Rocket Lab, Planet Labs e ETFs espaciais subiram entre 5 % e 11 %. Especialistas afirmam que uma estreia tão mediática pode redefinir as valorizações de todo o segmento. Contudo, comentadores financeiros salientam que, apesar do potencial da Starlink, pagar múltiplos superiores a 100 vezes as vendas é arriscado. Estudos históricos mostram que empresas lucrativas com receitas superiores a 100 milhões de dólares tendem a sub‑performar o mercado nos primeiros anos após o IPO.Nas redes sociais e fóruns de discussão, as opiniões são divergentes. Alguns potenciais investidores manifestam entusiasmo por participar num projecto “maior que a vida”, acreditando que a combinação de satélites de banda larga, robótica (como o robot Optimus), inteligência artificial e exploração lunar poderá multiplicar o capital investido em poucos anos. Outros vêem na SpaceX “a única empresa cuja oferta pública comprariam”, recordando os ganhos astronómicos da Tesla. Há ainda quem considere a entrada “uma aposta de capital de risco” em que se deve investir apenas o que se pode perder.Por outro lado, muitos observadores expressam ceticismo ou até desconfiança. Críticos apontam que uma empresa avaliada em biliões que lucra alguns milhares de milhões demoraria séculos a recuperar o investimento, classificada por alguns como “bolha” ou “pirâmide”. Há quem questione o facto de a SpaceX partilhar lucros com o público se poderia angariar capital de forma privada, e outros recordam que Musk frequentemente promete mais do que cumpre, entregando “apenas 10 % do que anuncia”. Comentários ambientalistas sublinham a poluição luminosa, a geração de detritos e o impacto no clima devido às frequentes reentradas de boosters. Alguns compararam o IPO ao lançamento de tokens de criptomoedas ou a bolhas históricas, apelando à prudência.Oportunidade ou furada?A avaliação da SpaceX envolve uma mistura de números concretos, expectativas de mercado e projeções futuristas. A empresa apresenta receitas crescentes, lucro robusto e domínio em lançamentos e comunicações via satélite. O projecto Starship e os planos de centros de dados em órbita, embora visionários, enfrentam grandes desafios tecnológicos e financeiros. As preocupações ambientais, o risco regulatório e o histórico de atrasos e explosões apontam para um panorama menos linear do que a narrativa épica sugere.Para o investidor, a decisão dependerá da sua tolerância ao risco e do horizonte temporal. As ações poderão beneficiar do entusiasmo inicial e do efeito “marca Musk”, mas também podem sofrer volatilidade significativa se os resultados não acompanharem as expectativas. Como observa um analista financeiro, a chave está no preço: demasiada euforia pode levar a múltiplos insustentáveis. Em síntese, a SpaceX de Musk oferece tanto a possibilidade de participar num dos projectos mais audaciosos da nossa era como o risco de embarcar numa jornada financeira incerta. Para muitos, esperar, observar e estudar o prospecto oficial poderá ser a estratégia mais prudente.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.