Macron critica falhas judiciais 'inaceitáveis' após suposto assassinato de menina
O presidente da França, Emmanuel Macron, instou, nesta sexta-feira (5), uma explicação sobre as falhas "inaceitáveis" do sistema judicial que teriam permitido o desaparecimento e assassinato de uma menina de 11 anos por um homem alvo de denúncias anteriores de pedofilia.
O caso de Lyhanna comoveu a França. A menina desapareceu em 29 de maio em Fleurance, pequena cidade rural do sudoeste do país, e foi vista pela última vez entrando no carro do acusado, pai de uma amiga.
Após dias de buscas, os investigadores encontraram na quinta-feira um cadáver com roupas semelhantes às usadas pela menina desaparecida, em um silo agrícola abandonado. Nesta sexta-feira, o Ministério Público confirmou que se trata da estudante do ensino fundamental.
"No estado atual de suas investigações, os legistas não podem, por ora, indicar quais são as causas da morte", detalhou em comunicado o promotor de Agen, Olivier Naboulet. Uma das dúvidas é se a menor foi agredida sexualmente.
O principal suspeito, Jérôme B., havia trabalhado na propriedade onde o corpo foi encontrado, segundo um responsável agrícola da região. Dias antes da descoberta, ele havia sido acusado de sequestro e preso.
Em Fleurance, os habitantes pareciam atônitos nesta sexta-feira com a descoberta do cadáver da estudante. Uma marcha em homenagem a Lyhanna está prevista para domingo nesta localidade de 6.000 habitantes.
"Com todas essas denúncias, no fim das contas há uma falha no sistema que realmente me enfurece", lamentou Paulette Cantan, uma aposentada de 79 anos, que disse sentir "muita tristeza e também raiva" ao descobrir o histórico do suspeito.
- "Falhas" -
Desde o início da semana, as revelações sobre o homem de 41 anos detido, que acumulava diversas denúncias, provocaram indignação e questionamentos sobre o funcionamento da Justiça.
"Está claro que houve uma falha e que não podemos ignorar que deficiências vieram à tona. Agora é preciso esclarecê-las (...) É inaceitável", afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron.
Segundo a promotora de Auch, Clémence Meyer, a mãe de uma adolescente de 17 anos denunciou o suspeito em dezembro de 2017 ao descobrir que a filha mantinha havia meses um relacionamento com ele, mas o caso foi arquivado em 2018 porque a menor afirmou que a relação era consensual.
Em janeiro de 2022, foi apresentada uma nova denúncia no norte da França por "estupro de menor de 15 anos", referente a fatos ocorridos em 2020 na residência do suspeito. O caso foi arquivado em maio de 2024 por falta de elementos suficientes, explicou a promotora.
A mãe de uma menina nascida em 2014 apresentou uma terceira denúncia em agosto de 2025 por estupros cometidos entre setembro de 2024 e maio de 2025 na residência do suspeito, acrescentou Meyer. Desde a apresentação da denúncia, o homem jamais foi interrogado.
- Sanções e ameaças -
A menos de um ano da eleição presidencial, da qual Macron não poderá participar, o caso coloca o governo à prova, ao ser acusado pela oposição e por organizações de não proteger menores nem levar suas denúncias a sério.
"Esse drama terrível podia e deveria ter sido evitado", escreveu na rede social X o líder de extrema direita Jordan Bardella, que lidera as pesquisas para o primeiro turno.
O primeiro-ministro, o conservador Sébastien Lecornu, reuniu-se nesta sexta-feira com membros de seu governo para discutir os possíveis erros judiciais neste caso e determinou que lhe sejam apresentadas "em 15 dias" as conclusões de uma investigação administrativa aberta.
O Ministério da Justiça anunciou sanções se forem confirmadas falhas na gestão das denúncias contra o suspeito, e apresentou uma queixa contra as ameaças recebidas pela promotora de Auch, depois que uma fonte do governo a apontou como suposta responsável pelos erros.
Apenas 7% das denúncias de violência sexual contra crianças e 3% das denúncias de estupro de menores resultam em condenação, segundo a comissão independente Civiise, que estima que quase 160 mil menores por ano sejam vítimas de agressões sexuais.
"Setenta e três por cento das denúncias de violência sexual contra menores são arquivadas sem qualquer providência", afirmou à AFP Denis Roth-Fichet, secretário-geral da Civiise, para quem essa violência "é a grande esquecida da Justiça francesa".
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P.Ponce--ECdLR