El Comercio De La República - Hollywood incorpora IA, mas quer preservar seu DNA criativo

Lima -
Hollywood incorpora IA, mas quer preservar seu DNA criativo
Hollywood incorpora IA, mas quer preservar seu DNA criativo / foto: Rodin Eckenroth - GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP

Hollywood incorpora IA, mas quer preservar seu DNA criativo

Inicialmente relutante, a indústria do cinema e da televisão dos Estados Unidos multiplica as parcerias com startups de inteligência artificial (IA) e adota cada vez mais essa tecnologia, embora afirme que pretende preservar seu DNA criativo.

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Hollywood precisou de vários anos para "assimilar o conceito", afirmou Mike Mosallam, da empresa de estúdios de filmagem Shadowbox Studios, em entrevista à revista Variety.

O setor adotou uma postura defensiva: os estúdios buscavam proteger seus direitos de propriedade intelectual, enquanto os atores temiam acabar transformados em matéria-prima para a IA.

Além disso, aqueles que faziam experiências com a tecnologia enfrentavam as limitações dos vídeos sintéticos, que iam de mãos com seis dedos a bocas que não se movimentavam de maneira adequada.

O ponto de virada ocorreu em março, quando a Netflix adquiriu, por 587 milhões de dólares (cerca de 3 bilhões de reais), uma pequena empresa com menos de 20 funcionários e praticamente desconhecida do grande público. Fundada em 2022 pelo produtor, diretor e ator Ben Affleck, a InterPositive é uma plataforma de IA voltada para o apoio à produção audiovisual.

Em junho, o estúdio Lionsgate adquiriu uma participação na Runway, uma das empresas de maior destaque na área de vídeos gerados por IA, com a qual pretende desenvolver projetos criativos. Poucos dias depois, o Google fez o mesmo com outro estúdio independente, a A24.

Exemplos recentes de peças publicitárias e curtas-metragens mostraram que os vídeos produzidos com IA, inclusive aqueles com personagens humanos, alcançaram um novo patamar.

"Em muitos casos, quando a história é bem contada, a tecnologia já é tão sofisticada que passa despercebida", resumiu a Runway em maio.

Para Jamie Umpherson, diretor de criação da Runway, "não se trata tanto de a tecnologia ter alcançado determinado grau de maturidade, mas de as pessoas estarem aprendendo a aproveitar melhor as ferramentas de vídeo com IA".

"Produzimos conteúdo de maior qualidade, com mais rapidez e eficiência do que se tivéssemos recorrido a métodos tradicionais", explicou o codiretor-executivo da Netflix, Ted Sarandos, durante a apresentação dos resultados da empresa, em meados de julho.

Sarandos mencionou a série documental The American Experiment, na qual mais de 17 minutos foram "retocados" com IA, especialmente por meio da inserção de personagens sintéticos.

- "Cinema híbrido" -

A Netflix, no entanto, parece concentrar o uso da tecnologia sobretudo nas etapas periféricas das filmagens, desde a visualização de um conceito até a correção de cores das imagens após a gravação.

"Usamos essas ferramentas para ampliar os cenários e dar maior dimensão às produções, mas preservamos o coração do processo cinematográfico, ou seja, a relação entre o ator, o diretor e a câmera em um ambiente colaborativo", afirmou Jon Erwin, diretor e produtor independente.

Em abril, sua produtora, Wonder Project, criou a empresa conjunta Innovative Dreams com a Luma, concorrente da Runway. As duas desenvolveram um novo procedimento que permite filmar os atores de maneira natural, sem chroma key ou figurinos especiais, e depois inseri-los em um universo gerado por IA mais realista do que a própria realidade.

É o "cinema híbrido" ou "não linear", segundo a definição de Erwin.

O modelo é tão rápido que a composição com IA pode ser concluída poucos minutos depois da gravação de uma cena, oferecendo uma visualização quase instantânea e permitindo filmar imediatamente tomadas adicionais, quando necessário.

O primeiro longa-metragem a utilizar essa arquitetura, Young Washington, já arrecadou mais de 40 milhões de dólares (cerca de 203 milhões de reais) nas bilheterias, o dobro de seu custo de produção. O filme de Erwin conta com o ator vencedor do Oscar Ben Kingsley e outros dois intérpretes premiados com o Globo de Ouro.

Técnicos, atores e operadores de câmera mantêm seus lugares nesse novo ecossistema, embora persista o debate sobre quantos profissionais serão necessários.

"Não acredito que continuarão destinando recursos para filmar dessa maneira por muito mais tempo", advertiu Matt Damon a respeito de A Odisseia, de Christopher Nolan, rodada em três continentes.

Até agora, os pilares históricos de Hollywood — Paramount, Universal, Sony, Walt Disney e Warner Bros. — mantiveram-se oficialmente à margem da revolução da IA.

Mas "os estúdios terão que embarcar nessa", afirmou Tanya Porquez, diretora da Generated Group, que acaba de lançar a GeneratedDB, uma base de dados para a criação de vídeos com IA.

"Não necessariamente porque queiram, mas porque é difícil ignorar as economias de escala" oferecidas pela IA, concluiu.

T.Tapia--ECdLR