El Comercio De La República - Drex: reviravolta digital

Lima -

Drex: reviravolta digital




Durante quatro anos, o Banco Central do Brasil levou adiante o mais ambicioso experimento de inovação financeira da sua história: o Real Digital, batizado de Drex. A proposta era simples em teoria: criar uma versão digital do real, garantida pela mesma autoridade que emite a moeda física, conversível na proporção de 1:1 e capaz de permitir a tokenização de ativos, contratos inteligentes e pagamentos instantâneos com liquidação final. Na prática, o projeto exigiu investimentos, parceria com dezenas de instituições e o uso de tecnologias de contabilidade distribuída. No fim de 2025, o Banco Central anunciou que a plataforma usada até então seria desligada. A notícia levantou dúvidas e alimentou boatos sobre o suposto “fim” do Drex. Mas o que realmente ocorreu com o Real Digital?

O que era o Drex e quais eram seus objetivos
O Drex surgiu como resposta às transformações que o Pix gerou no sistema de pagamentos brasileiro e ao avanço das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) no mundo. A autoridade monetária pretendia criar um ambiente digital onde instituições financeiras e clientes pudessem operar com ativos tokenizados, transferir títulos e efetuar pagamentos de forma programável e segura. O projeto incluía três fases principais:

Fase 1: seleção de propostas de consórcios formados por bancos, fintechs e empresas de tecnologia que demonstrassem, em um ambiente controlado, a entrega contra pagamento (DvP) de títulos públicos tokenizados. Uma das exigências era que as soluções preservassem a privacidade das transações.

Fase 2: desenvolvimento de 13 projetos pilotos, escolhidos entre 42 propostas, em cima de uma infraestrutura baseada na Hyperledger Besu, uma plataforma de blockchain permissionada. Nessa etapa, testavam‑se casos como emissão de CDBs tokenizados, liquidação de títulos federais, câmbio e integração com o Pix.

Fase 3: após os testes, seria escolhida a tecnologia definitiva e iniciada a ampliação gradual para um ambiente de produção, com possibilidade de interação direta de pessoas físicas e jurídicas com o Drex.

Em paralelo ao lado técnico, o Banco Central buscava adequar o sistema ao sigilo bancário e à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), pontos sensíveis para uma moeda digital sob controle estatal. A autoridade também planejava evitar que o Drex concorresse com depósitos remunerados de bancos ou drenasse liquidez do sistema, optando por limitar seu uso a transações pontuais, com conversões sempre reversíveis para o real físico.

Por que a plataforma foi desligada
Em novembro de 2025, após reuniões com os consórcios envolvidos nos testes, o Banco Central comunicou que a plataforma usada nas fases 1 e 2 seria desativada até 10 de novembro de 2025. A decisão foi motivada por fatores que, segundo participantes do projeto e técnicos da instituição, tornaram inviável continuar com o desenho original:

Privacidade e sigilo bancário – O modelo de blockchain adotado não conseguiu entregar anonimato suficiente para as transações entre instituições e clientes. Sistemas baseados em registros públicos permitem auditoria e rastreamento, mas era necessário compatibilizar transparência com confidencialidade. As soluções apresentadas durante a fase 2 não satisfizeram o nível de proteção exigido pela LGPD, nem garantiram sigilo completo sob o controle do regulador.

Custo e complexidade – A Hyperledger Besu exigia alto poder computacional para processar transações, o que elevaria a despesa operacional se fosse escalada para todo o país. Além disso, consórcios envolvidos relataram escassez de profissionais capacitados em programação de contratos inteligentes e configuração de redes permissionadas no nível exigido.

Contradição entre descentralização e controle – O Drex foi concebido como infraestrutura pública operada pelo Estado, mas usando princípios de blockchain que pressupõem descentralização e transparência. Desenvolvedores apontaram que conciliar privacidade absoluta em uma rede distribuída com um controle centralizado do Banco Central era praticamente impossível: ou se abria mão do sigilo, ou se perdia a transparência. O embate entre esses polos levou a críticas sobre possível vigilância estatal e a dúvidas jurídicas sobre a conformidade da plataforma.

Reações políticas e sociais – Grupos contrários à digitalização do real argumentavam que o Drex poderia ser utilizado como instrumento de controle social, permitindo bloqueios seletivos de contas ou restrições de compras. Embora a autoridade monetária tenha negado tais intenções, a resistência influenciou o debate público e aumentou a pressão por soluções que garantam a privacidade e o respeito às liberdades individuais.

Diante desse conjunto de problemas, a autoridade monetária julgou que manter a plataforma sem resolver as fragilidades poderia comprometer a credibilidade do projeto e prejudicar a imagem do Real Digital no futuro.

O projeto acabou? A nova estratégia do Banco Central
O desligamento da plataforma atual não significa que o Real Digital foi abandonado. Representantes do Banco Central afirmaram que o Drex continua sendo um objetivo estratégico, mas que precisará ser redesenhado. A instituição pretende seguir alguns caminhos:

Tecnologia agnóstica – Em vez de escolher uma blockchain específica e, em seguida, procurar aplicações, a nova fase parte das necessidades de mercado. As equipes do Banco Central irão mapear quais casos de uso são prioritários, como a tokenização de ativos para servir de garantia em operações de crédito, a interoperabilidade com o Pix e a integração ao Open Finance. Somente depois serão selecionadas as tecnologias que melhor atendam cada necessidade.

Foco em garantias e colateral – Um dos usos mais promissores observados nos pilotos foi a possibilidade de utilizar ativos tokenizados como garantia para empréstimos. Ao tokenizar títulos públicos, CDBs ou recebíveis, instituições financeiras podem reduzir riscos e melhorar a oferta de crédito. O Banco Central pretende priorizar esses casos em 2026.

Terceira fase em 2026 – A fase 3 do Drex está prevista para começar no início de 2026. Nela, será escolhida uma nova infraestrutura e serão realizados testes adicionais para avaliar o grau de privacidade, programabilidade e eficiência. A meta é permitir que o mercado lidere o desenvolvimento de novos modelos de negócio, com a supervisão do regulador.

Coordenação com o mercado – A autoridade monetária reconheceu que a inovação acontecerá mais rápido se vier do próprio setor privado. Assim, em vez de manter uma plataforma estatal de blockchain, o Banco Central pretende atuar como regulador e facilitador, incentivando a interoperabilidade entre soluções privadas e garantindo padrões de segurança e compliance.

Impactos no Brasil e no cenário internacional
A decisão de suspender a plataforma do Drex ocorreu em um contexto global de reavaliação das CBDCs. Enquanto mais de 130 países estudam emissões de moedas digitais, poucas iniciativas avançaram para implementação plena. Projetos no Caribe, na China e na Nigéria mostraram que desafios como privacidade, estabilidade tecnológica e adesão do público são complexos. No Brasil, o Drex estava entre as experiências mais ambiciosas ao propor tokenização de ativos e contratos inteligentes.

O recuo do Banco Central brasileiro levanta questionamentos sobre a viabilidade das CBDCs como estão concebidas. Ao mesmo tempo, ressalta o crescimento das stablecoins privadas, atreladas a moedas fiduciárias, que ganharam adoção entre consumidores e empresas. Ao focar em casos de uso específicos e permitir que o mercado desenvolva soluções baseadas em tokenização, o Brasil pode pavimentar o caminho para um ecossistema financeiro inovador sem comprometer a privacidade dos usuários.

O que esperar nos próximos anos
O “fim do Drex”, interpretado por alguns como a morte do Real Digital, é na verdade o fechamento de um ciclo. A primeira versão da moeda digital brasileira mostrou que privacidade, sigilo bancário e custos operacionais são obstáculos centrais. A partir de 2026, a expectativa é de que a autoridade monetária, em conjunto com bancos, fintechs e empresas de tecnologia, inicie um processo de reavaliação para projetar uma infraestrutura mais segura e eficiente.

Os pilares dessa nova etapa devem ser:
Garantir a confidencialidade das transações sem abrir mão de mecanismos de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
Reduzir custos operacionais, explorando tecnologias que exijam menor poder computacional, sejam facilmente escaláveis e contem com profissionais qualificados no mercado.
Adotar uma arquitetura modular que permita ao Banco Central exercer supervisão sem gerir diretamente todos os nós da rede, favorecendo a descentralização controlada.
Engajar a sociedade no debate sobre privacidade, vigilância e soberania monetária, evitando narrativas extremas e garantindo transparência sobre as finalidades da moeda digital.

Enquanto isso, consumidores e empresas devem continuar usando o Pix para pagamentos instantâneos e recorrer a tokens privados ou stablecoins em projetos de tokenização. O aprendizado acumulado pelo Banco Central será fundamental para construir um Real Digital que realmente atenda às necessidades do país, impulsione a inovação e respeite direitos fundamentais.

Conclusão
A narrativa de “fim do Drex” traduz apenas parte da realidade. O Banco Central desligou a plataforma de blockchain utilizada nas primeiras fases do projeto porque ela não cumpriu os requisitos de privacidade, custo e segurança. Contudo, a busca por uma versão digital do real continua. A nova estratégia passa por repensar a arquitetura tecnológica, priorizar casos de uso concretos, permitir maior protagonismo do mercado e iniciar uma terceira fase de testes em 2026. O caminho do Real Digital será mais longo e menos linear do que se imaginava, mas a experiência acumulada coloca o Brasil em posição de destaque no debate global sobre moedas digitais de bancos centrais.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Conflito no Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio entrou numa fase em que as linhas entre guerra local e choque regional se tornam cada vez mais ténues. O que começou como um epicentro de violência em Gaza, com ondas de repercussões políticas e humanitárias, evoluiu para um tabuleiro mais amplo: fronteiras tensas a norte de Israel, confrontos indiretos envolvendo aliados e milícias, disputas de dissuasão entre Estados e uma dimensão económica que já se sente fora da região, sobretudo na energia e nas rotas marítimas.Na leitura de especialistas em segurança internacional, o elemento decisivo do momento não é apenas a intensidade dos combates, mas a soma de frentes simultâneas e interligadas. Cada frente aumenta o risco de “efeitos em cascata”: uma escalada num ponto pode provocar resposta noutro; um incidente marítimo pode traduzir-se em pressão interna sobre governos; um impasse diplomático pode prolongar a crise humanitária e radicalizar posições.Gaza: a ferida aberta e o dilema pós-guerraGaza continua a ser o centro simbólico e operacional do conflito. Mesmo em períodos de pausa negociada ou cessar-fogo parcial, o terreno permanece instável: há acusações recíprocas de violações, episódios de violência e um ambiente político em que a confiança é mínima. Para a segurança internacional, isto cria dois problemas paralelos.O primeiro é humanitário: a degradação prolongada das condições de vida alimenta desespero, deslocações, doenças, colapso de serviços e uma pressão constante sobre organizações humanitárias. O segundo é estratégico: sem uma solução política credível para governação, segurança e reconstrução, o conflito tende a manter-se em ciclos, com espaço para grupos armados se reorganizarem e para a violência se renovar.Do ponto de vista do equilíbrio regional, a questão central é: quem assegura a ordem e com que legitimidade? A “arquitetura do dia seguinte” — forças de segurança, administração, controlo de fronteiras, circulação de ajuda e reabilitação de infraestruturas — é um tema tão sensível quanto a própria guerra. E é nesse vazio, alertam analistas, que nascem as escaladas seguintes.Norte de Israel e Líbano: o risco de alargamento por cálculo ou acidenteNo eixo Israel–Líbano, a tensão é marcada por um padrão perigoso: ataques, retaliações, deslocações internas e ameaças que criam ambiente de pré-guerra. Mesmo quando nenhum dos lados declara querer uma guerra total, a combinação de capacidades militares, pressões domésticas e lógica de dissuasão pode gerar uma escalada “não planeada”.Especialistas sublinham que guerras regionais nem sempre começam por decisão formal: podem começar por uma sequência de decisões táticas, mal-entendidos ou resposta excessiva a um ataque. A presença de atores armados com autonomia operacional e a proximidade de zonas urbanas aumentam a probabilidade de erros com consequências estratégicas.Ao mesmo tempo, potências externas tentam conter a escalada com mensagens públicas e canais discretos de comunicação, procurando evitar um cenário em que um conflito fronteiriço se transforme numa guerra aberta com impacto direto em vários países.Irão, dissuasão e a guerra nas “zonas cinzentas”Um dos elementos mais sensíveis desta etapa é o confronto indireto — e por vezes direto — envolvendo o Irão e adversários regionais, com implicações para aliados e para a presença militar externa na região. Para a segurança internacional, trata-se de um jogo de limites: cada parte procura impor custos e demonstrar capacidade, mas tenta evitar um ponto de não retorno.O Irão tem apostado historicamente numa combinação de influência regional, redes de aliados e capacidade de pressão assimétrica. Já os seus adversários procuram neutralizar ameaças, reduzir capacidade militar e impedir que a crise se traduza numa mudança de equilíbrio duradoura. O problema é que, quando a lógica de dissuasão falha — ou quando a perceção pública exige uma resposta “mais dura” — abre-se espaço para uma escalada direta.Nesta fase, o mundo acompanha com particular atenção a dimensão marítima e energética: qualquer perturbação prolongada em corredores estratégicos pode ter impacto imediato em preços, seguros, cadeias logísticas e inflação.Mar Vermelho e rotas marítimas: o conflito chega à economia globalA pressão sobre rotas marítimas tornou-se um dos sinais mais claros de como a crise já ultrapassou a geografia do combate terrestre. A instabilidade no Mar Vermelho e em corredores ligados ao comércio global eleva custos e atrasa entregas. Para empresas e governos, o tema deixou de ser apenas “segurança regional” para se tornar segurança económica.Quando ataques ou ameaças aumentam o risco para navios comerciais, cresce o desvio de rotas e a escalada de prémios de seguro. Isso pressiona combustíveis, transporte e preço final de bens. Especialistas salientam que este tipo de pressão funciona como multiplicador de crise: mesmo países distantes podem sentir efeitos, o que aumenta a urgência política por soluções — mas nem sempre com consenso sobre qual solução.Estreitos e energia: quando a geopolítica toca o quotidianoA energia é o nervo exposto do sistema internacional em tempos de guerra regional. Qualquer ameaça, interrupção ou incerteza em corredores críticos pode provocar movimentos bruscos no mercado. Mesmo sem uma interrupção total, basta um período prolongado de risco elevado para encarecer transporte e alimentar volatilidade.Para analistas de segurança, a questão vai além do preço do barril: trata-se de previsibilidade. Investimento, planeamento industrial, reservas estratégicas e políticas internas ficam condicionados quando o mercado entra em modo de choque. A instabilidade energética também tem reflexos políticos: governos enfrentam pressão social, e decisões externas podem ser afetadas por considerações de custo interno.Diplomacia: entre a urgência humanitária e a falta de confiançaEm paralelo, a diplomacia enfrenta o desafio clássico de conflitos prolongados: negociar quando as partes acreditam que ainda podem ganhar mais pela força do que pela mesa. A existência de propostas e iniciativas não significa, por si só, proximidade de paz. O ponto crítico é o mecanismo de implementação: quem garante, quem fiscaliza, que incentivos e penalizações existem, e como se reduz o risco de colapso do acordo.As organizações internacionais concentram esforços em ajuda humanitária, proteção de civis e defesa do direito internacional. No entanto, a eficácia no terreno depende de acesso, segurança e coordenação, frequentemente dificultadas por combates, bloqueios, desconfiança e disputas políticas.Três cenários de curto prazoEspecialistas costumam trabalhar com cenários para orientar governos, empresas e organizações humanitárias. No curto prazo, três caminhos concentram maior probabilidade.1. Estabilização frágil: pausas de combate, algum fluxo de ajuda, negociações intermitentes, mas sem solução política sólida — cenário com risco alto de recaída.2. Escalada regional controlada: aumento de confrontos indiretos e episódios de maior alcance, mas ainda sem guerra total — cenário de custos económicos elevados e insegurança marítima persistente.3. Rutura e guerra ampliada: incidente catalisador ou decisão política que abre uma frente de grande escala — cenário de choque energético, deslocações massivas e pressão internacional extrema.O que observar: sinais de escalada e sinais de contençãoPara antecipar a direção do conflito, analistas recomendam observar alguns indicadores: intensidade e frequência de ataques em frentes secundárias, mudanças no posicionamento militar de potências externas, deterioração rápida de condições humanitárias, e sobretudo decisões políticas que indiquem ausência de espaço para compromisso.Do lado da contenção, sinais incluem retomada de canais de negociação, mecanismos operacionais para ajuda e reconstrução, garantias verificáveis de cessar-fogo e passos concretos para reduzir tensões nas rotas marítimas.Conclusão: segurança regional, impacto globalO conflito no Oriente Médio já não pode ser interpretado como crise isolada. A combinação de guerra terrestre, confronto indireto entre Estados, pressão marítima e risco energético transformou a situação num teste à gestão internacional de crises. A estabilidade dependerá menos de declarações e mais de medidas verificáveis: proteção de civis, acesso humanitário sustentado, acordos com mecanismos de implementação e redução concreta de incentivos à escalada.Para a segurança internacional, o desafio é duplo: conter o pior no imediato e, ao mesmo tempo, construir condições para que o conflito não se reproduza em ciclos. Sem uma base política e institucional minimamente funcional, a região permanece exposta — e com ela o sistema económico e de segurança global.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.