El Comercio De La República - Galípolo: Força e Liquidez?

Lima -

Galípolo: Força e Liquidez?




As redes sociais voltaram a especular sobre a possibilidade de Michael Saylor e a sua empresa MicroStrategy serem “liquidados” devido à queda recente do preço do bitcoin. A discussão se intensificou quando o custo do financiamento de curto prazo nos Estados Unidos subiu: as taxas do mercado de recompra (repo) ficaram acima do teto da faixa meta do Federal Reserve, indicando que a liquidez está mais escassa e pressionando investidores alavancados. Mas a estrutura de financiamento de Saylor é diferente da de um investidor que opera em bolsa com margem; a MicroStrategy usa notas conversíveis e instrumentos de longo prazo para comprar bitcoin, e analistas apontam que a empresa está bem posicionada para atravessar um mercado de baixa. Um conceituado analista do mercado cripto afirmou recentemente que a MicroStrategy não deve ser liquidada no próximo ciclo de queda e que as datas de vencimento mais sensíveis só começam em 2027.

Esse analista observou que a primeira data em que investidores podem exigir o resgate antecipado de notas ocorre em setembro de 2027, e que a empresa precisaria vender parte do seu estoque de BTC apenas se o preço da moeda digital ficasse muito abaixo dos níveis actuais por vários anos. Ainda assim, há um risco de liquidação parcial em 2028 se o bitcoin não subir o bastante, porque as notas conversíveis podem ser resgatadas nesse momento. O próprio Saylor destacou que a empresa alterou sua estrutura de capital para emissões preferenciais perpétuas e que pode suportar uma queda de 80 % no preço do bitcoin sem precisar vender posições.

A pergunta sobre se “a liquidez dos bancos centrais acabou” surge porque, depois de anos de estímulos, as autoridades monetárias estão reduzindo seus balanços e mantendo juros altos. Nos Estados Unidos, o aperto monetário reduziu as reservas bancárias para cerca de 2,8 trilhões de dólares, perto do limite que o Fed considera “amplo” para evitar disfunções. Isso e a forte emissão de títulos públicos levaram as taxas de repo a subir, sinalizando menor disponibilidade de caixa. Analistas observam que a combinação de déficit fiscal elevado e aumento da conta do Tesouro drena reservas do setor privado; por isso o Fed tem alertado bancos para usarem a sua Linha Permanente de Repo como amortecedor e discute com as instituições como melhorar o fluxo de liquidez. Ao mesmo tempo, a escassez não é absoluta: dados do Banco de Compensações Internacionais mostram que o crédito em moeda estrangeira cresceu 6 % em dólares e 13 % em euros em 12 meses até junho de 2025, indicando que o crédito internacional continua a se expandir.

Na zona do euro, a supervisora do Banco Central Europeu, Claudia Buch, advertiu que os bancos devem se preparar para um ambiente com menos liquidez e reforçar o colateral disponível para empréstimos de emergência, mas elogiou o preparo das instituições e disse que o ajuste está sendo feito de forma ordenada. No Brasil, o Banco Central segue ativo no mercado de câmbio: em novembro anunciou leilões de venda de dólares com compromisso de recompra no valor de dois bilhões de dólares para rolar contratos que vencem no começo de 2026. Esse tipo de operação evita que a procura por dólares pressione o real e garante liquidez ao sistema financeiro. Ou seja, a liquidez dos bancos centrais não “acabou”; ela está sendo administrada com mais cuidado, e há instrumentos prontos para socorrer o mercado quando surgem tensões.

No meio dessa reconfiguração global, o Brasil vive a transição de comando no Banco Central. Gabriel Galípolo, economista de perfil técnico e ex‑secretário do Ministério da Fazenda, foi aprovado pelo Senado para presidir a autoridade monetária a partir de 2025. A nomeação foi recebida com otimismo pelo mercado: analistas destacam sua experiência em liderança e rigor técnico como fundamentais para conduzir a política monetária. Mesmo os profissionais que se preocupam com a proximidade de Galípolo com o governo reconhecem que sua indicação sinaliza continuidade na busca da meta de inflação. Durante a sabatina no Senado ele defendeu a independência do BC e ressaltou que “todo mundo pode brigar com o Banco Central, mas o BC não pode brigar com os dados”; especialistas interpretaram a frase como um compromisso com decisões baseadas em indicadores e não em pressões políticas.

Pouco depois, ainda como diretor de Política Monetária, participou de um fórum de investimentos no qual afirmou que o BC não dá pistas sobre os próximos passos justamente porque depende de dados e tem de manter a postura conservadora até que a inflação converja para a meta. A autoridade monetária manteve a Selic em 15 % e sinalizou que essa taxa elevada deve durar “por um período bastante prolongado” para garantir a convergência para o centro da meta de 3 %. Galípolo também reconheceu que a inflação de serviços segue pouco compatível com a meta e que é preciso cautela, mas sublinhou que o país combina crescimento contínuo com desemprego baixo, o que permite usar juros altos por mais tempo sem estagnar a economia.

O elogio ao estilo sereno e institucional de Galípolo também veio da Federação Brasileira de Bancos, que considerou promissora a condução da transição e ressaltou a importância de manter a confiança dos agentes econômicos. Investidores observaram com bons olhos a unanimidade do Comitê de Política Monetária na decisão de subir os juros em sua primeira reunião com Galípolo como diretor, interpretando o voto como um aceno de independência. Outros especialistas lembram que o novo presidente terá de mostrar sensibilidade social ao ajustar a política monetária, evitando que o controle da inflação asfixie o crescimento. Em resumo, enquanto as redes sociais debatem eventuais liquidações de megainvestidores e teorias de que a liquidez global secou, a realidade mostra instituições e autoridades agindo para administrar riscos. O caso de Saylor exemplifica como estratégias estruturadas de longo prazo são menos vulneráveis a oscilações de mercado, e o debate sobre liquidez indica um período de transição em que a oferta de dinheiro não desapareceu, mas será usada com parcimônia. Já no Brasil, a figura de Gabriel Galípolo surge como um sinal de continuidade com prudência, conciliando o combate à inflação com a necessidade de preservar o dinamismo da economia.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Conflito no Oriente Médio

O conflito no Oriente Médio entrou numa fase em que as linhas entre guerra local e choque regional se tornam cada vez mais ténues. O que começou como um epicentro de violência em Gaza, com ondas de repercussões políticas e humanitárias, evoluiu para um tabuleiro mais amplo: fronteiras tensas a norte de Israel, confrontos indiretos envolvendo aliados e milícias, disputas de dissuasão entre Estados e uma dimensão económica que já se sente fora da região, sobretudo na energia e nas rotas marítimas.Na leitura de especialistas em segurança internacional, o elemento decisivo do momento não é apenas a intensidade dos combates, mas a soma de frentes simultâneas e interligadas. Cada frente aumenta o risco de “efeitos em cascata”: uma escalada num ponto pode provocar resposta noutro; um incidente marítimo pode traduzir-se em pressão interna sobre governos; um impasse diplomático pode prolongar a crise humanitária e radicalizar posições.Gaza: a ferida aberta e o dilema pós-guerraGaza continua a ser o centro simbólico e operacional do conflito. Mesmo em períodos de pausa negociada ou cessar-fogo parcial, o terreno permanece instável: há acusações recíprocas de violações, episódios de violência e um ambiente político em que a confiança é mínima. Para a segurança internacional, isto cria dois problemas paralelos.O primeiro é humanitário: a degradação prolongada das condições de vida alimenta desespero, deslocações, doenças, colapso de serviços e uma pressão constante sobre organizações humanitárias. O segundo é estratégico: sem uma solução política credível para governação, segurança e reconstrução, o conflito tende a manter-se em ciclos, com espaço para grupos armados se reorganizarem e para a violência se renovar.Do ponto de vista do equilíbrio regional, a questão central é: quem assegura a ordem e com que legitimidade? A “arquitetura do dia seguinte” — forças de segurança, administração, controlo de fronteiras, circulação de ajuda e reabilitação de infraestruturas — é um tema tão sensível quanto a própria guerra. E é nesse vazio, alertam analistas, que nascem as escaladas seguintes.Norte de Israel e Líbano: o risco de alargamento por cálculo ou acidenteNo eixo Israel–Líbano, a tensão é marcada por um padrão perigoso: ataques, retaliações, deslocações internas e ameaças que criam ambiente de pré-guerra. Mesmo quando nenhum dos lados declara querer uma guerra total, a combinação de capacidades militares, pressões domésticas e lógica de dissuasão pode gerar uma escalada “não planeada”.Especialistas sublinham que guerras regionais nem sempre começam por decisão formal: podem começar por uma sequência de decisões táticas, mal-entendidos ou resposta excessiva a um ataque. A presença de atores armados com autonomia operacional e a proximidade de zonas urbanas aumentam a probabilidade de erros com consequências estratégicas.Ao mesmo tempo, potências externas tentam conter a escalada com mensagens públicas e canais discretos de comunicação, procurando evitar um cenário em que um conflito fronteiriço se transforme numa guerra aberta com impacto direto em vários países.Irão, dissuasão e a guerra nas “zonas cinzentas”Um dos elementos mais sensíveis desta etapa é o confronto indireto — e por vezes direto — envolvendo o Irão e adversários regionais, com implicações para aliados e para a presença militar externa na região. Para a segurança internacional, trata-se de um jogo de limites: cada parte procura impor custos e demonstrar capacidade, mas tenta evitar um ponto de não retorno.O Irão tem apostado historicamente numa combinação de influência regional, redes de aliados e capacidade de pressão assimétrica. Já os seus adversários procuram neutralizar ameaças, reduzir capacidade militar e impedir que a crise se traduza numa mudança de equilíbrio duradoura. O problema é que, quando a lógica de dissuasão falha — ou quando a perceção pública exige uma resposta “mais dura” — abre-se espaço para uma escalada direta.Nesta fase, o mundo acompanha com particular atenção a dimensão marítima e energética: qualquer perturbação prolongada em corredores estratégicos pode ter impacto imediato em preços, seguros, cadeias logísticas e inflação.Mar Vermelho e rotas marítimas: o conflito chega à economia globalA pressão sobre rotas marítimas tornou-se um dos sinais mais claros de como a crise já ultrapassou a geografia do combate terrestre. A instabilidade no Mar Vermelho e em corredores ligados ao comércio global eleva custos e atrasa entregas. Para empresas e governos, o tema deixou de ser apenas “segurança regional” para se tornar segurança económica.Quando ataques ou ameaças aumentam o risco para navios comerciais, cresce o desvio de rotas e a escalada de prémios de seguro. Isso pressiona combustíveis, transporte e preço final de bens. Especialistas salientam que este tipo de pressão funciona como multiplicador de crise: mesmo países distantes podem sentir efeitos, o que aumenta a urgência política por soluções — mas nem sempre com consenso sobre qual solução.Estreitos e energia: quando a geopolítica toca o quotidianoA energia é o nervo exposto do sistema internacional em tempos de guerra regional. Qualquer ameaça, interrupção ou incerteza em corredores críticos pode provocar movimentos bruscos no mercado. Mesmo sem uma interrupção total, basta um período prolongado de risco elevado para encarecer transporte e alimentar volatilidade.Para analistas de segurança, a questão vai além do preço do barril: trata-se de previsibilidade. Investimento, planeamento industrial, reservas estratégicas e políticas internas ficam condicionados quando o mercado entra em modo de choque. A instabilidade energética também tem reflexos políticos: governos enfrentam pressão social, e decisões externas podem ser afetadas por considerações de custo interno.Diplomacia: entre a urgência humanitária e a falta de confiançaEm paralelo, a diplomacia enfrenta o desafio clássico de conflitos prolongados: negociar quando as partes acreditam que ainda podem ganhar mais pela força do que pela mesa. A existência de propostas e iniciativas não significa, por si só, proximidade de paz. O ponto crítico é o mecanismo de implementação: quem garante, quem fiscaliza, que incentivos e penalizações existem, e como se reduz o risco de colapso do acordo.As organizações internacionais concentram esforços em ajuda humanitária, proteção de civis e defesa do direito internacional. No entanto, a eficácia no terreno depende de acesso, segurança e coordenação, frequentemente dificultadas por combates, bloqueios, desconfiança e disputas políticas.Três cenários de curto prazoEspecialistas costumam trabalhar com cenários para orientar governos, empresas e organizações humanitárias. No curto prazo, três caminhos concentram maior probabilidade.1. Estabilização frágil: pausas de combate, algum fluxo de ajuda, negociações intermitentes, mas sem solução política sólida — cenário com risco alto de recaída.2. Escalada regional controlada: aumento de confrontos indiretos e episódios de maior alcance, mas ainda sem guerra total — cenário de custos económicos elevados e insegurança marítima persistente.3. Rutura e guerra ampliada: incidente catalisador ou decisão política que abre uma frente de grande escala — cenário de choque energético, deslocações massivas e pressão internacional extrema.O que observar: sinais de escalada e sinais de contençãoPara antecipar a direção do conflito, analistas recomendam observar alguns indicadores: intensidade e frequência de ataques em frentes secundárias, mudanças no posicionamento militar de potências externas, deterioração rápida de condições humanitárias, e sobretudo decisões políticas que indiquem ausência de espaço para compromisso.Do lado da contenção, sinais incluem retomada de canais de negociação, mecanismos operacionais para ajuda e reconstrução, garantias verificáveis de cessar-fogo e passos concretos para reduzir tensões nas rotas marítimas.Conclusão: segurança regional, impacto globalO conflito no Oriente Médio já não pode ser interpretado como crise isolada. A combinação de guerra terrestre, confronto indireto entre Estados, pressão marítima e risco energético transformou a situação num teste à gestão internacional de crises. A estabilidade dependerá menos de declarações e mais de medidas verificáveis: proteção de civis, acesso humanitário sustentado, acordos com mecanismos de implementação e redução concreta de incentivos à escalada.Para a segurança internacional, o desafio é duplo: conter o pior no imediato e, ao mesmo tempo, construir condições para que o conflito não se reproduza em ciclos. Sem uma base política e institucional minimamente funcional, a região permanece exposta — e com ela o sistema económico e de segurança global.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.