El Comercio De La República - Quando a China exporta demais

Lima -

Quando a China exporta demais




A escalada das exportações chinesas em 2025 colocou o gigante asiático novamente no centro do debate sobre equilíbrio comercial e concorrência global. A China consolidou‑se como a maior potência exportadora do planeta, com um superávit comercial em bens que ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão nos primeiros 11 meses do ano. Este recorde se explica pela habilidade de Pequim de atender a demanda mundial com produtos baratos e em grande volume, mas o desequilíbrio crescente tem provocado reações de autoridades, empresas e analistas.

Superávit recorde e mercados saturados
Dados oficiais divulgados em dezembro mostram que o superávit comercial da China alcançou US$ 1,076 trilhão entre janeiro e novembro, mesmo com a queda de quase um terço das exportações para os Estados Unidos. A desaceleração nos embarques para o mercado americano, reflexo da guerra tarifária reinstalada em 2025, coincidiu com uma forte expansão das vendas para a Europa e para o sudeste asiático. Economistas alertam que esta diversificação ocorreu em grande parte porque as tarifas norte‑americanas desviaram o fluxo comercial para outros destinos, intensificando pressões competitivas em muitas partes do mundo.

A concentração no exterior contrasta com a fragilidade do mercado interno chinês. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o país manterá crescimento em torno de 5 %, mas adverte que a “dependência excessiva das exportações” agrava desequilíbrios globais. A diretora‑gerente do FMI, Kristalina Georgieva, observou que a inflação muito baixa em relação a outros países depreciou o yuan em termos reais, tornando as mercadorias chinesas artificialmente baratas e prolongando a dependência das vendas externas. O relatório anual da Câmara de Comércio da União Europeia em Pequim reforça esse diagnóstico ao afirmar que a moeda desvalorizada atua como um subsídio à exportação e sugere que parceiros comerciais podem responder com medidas antidumping e tarifas.

Preocupação na Europa e nos Estados Unidos
A União Europeia vive o que especialistas chamam de “segundo choque chinês”. Após inundar o bloco com produtos de baixo valor após sua adesão à Organização Mundial do Comércio em 2001, a China agora mira o coração industrial europeu com automóveis, máquinas e equipamentos de alta tecnologia. Os números impressionam: em 12 meses até outubro, as importações de robôs industriais da China cresceram 171 % enquanto os preços caíram 31 %; as compras de circuitos integrados aumentaram 84 % com queda de 6 % nos preços; e as importações de carros mais que dobraram, com recuo de 15 % nos valores. A Comissão Europeia criou uma força‑tarefa de vigilância para monitorar esses “desvios comerciais” e já abriu investigações sobre 15 produtos, embora relute em adotar medidas generalizadas por temer retaliações de Pequim e por depender de insumos chineses para a transição verde.

Em outubro, fabricantes e governos europeus pressionaram por uma resposta mais dura a essa avalanche de mercadorias baratas. Empresas de pneus na Alemanha, por exemplo, reclamam da chegada de pneus novos da Ásia por menos de 40 % do preço de um modelo premium, competição que levou ao fechamento de fábricas. Relatório da Comissão aponta “aumentos potencialmente prejudiciais” em importações de têxteis, madeira, químicos, metais, máquinas e equipamentos de transporte. Enquanto isso, plataformas de comércio eletrônico como AliExpress, Temu e Shein aproveitam isenções de impostos em pacotes de baixo valor e inundam o mercado europeu com roupas e artigos de casa.

Nos Estados Unidos, as tarifas sobre produtos chineses — reinstaladas após a eleição de Donald Trump em 2024 — reduziram as importações diretas, mas motivaram a reexportação via países do sudeste asiático. Especialistas calculam que parte significativa das mercadorias enviadas para países como Indonésia e Malásia é redirecionada para os EUA para contornar as barreiras alfandegárias. Além disso, investigações jornalísticas mostraram que fabricantes chineses de automóveis a gasolina, encurralados pela rápida expansão dos veículos elétricos em casa, despejaram milhões de carros em mercados emergentes da América Latina, África e Europa Oriental. Dados de consultorias independentes indicam que 76 % dos veículos exportados pela China desde 2020 são movidos a combustão e que o volume total de remessas saltou de 1 milhão para mais de 6,5 milhões em 2025. Essa ofensiva é financiada por subsídios que geraram capacidade de produção muito superior à demanda, levando fabricantes ocidentais a acusar Pequim de “exportar sua crise”.

Sobreoferta e queda de preços
O fenômeno não se restringe aos carros. No setor solar, a capacidade instalada das fábricas chinesas é suficiente para atender duas vezes a demanda global, levando o governo a adotar medidas para fechar linhas de produção menos eficientes. Mesmo assim, as exportações de módulos fotovoltaicos cresceram 6 % entre janeiro e outubro, embora o valor total tenha caído 13,2 % por causa do recuo dos preços. Estimativas apontam que, se a demanda doméstica não acompanhar, as empresas serão obrigadas a buscar novos mercados no exterior, aumentando o excesso de oferta.

Analistas também destacam a debilidade do consumo interno chinês. As famílias enfrentam o impacto de uma crise imobiliária prolongada e tendem a poupar, de modo que o consumo representa cerca de 50 % do PIB, bem abaixo dos 80 % dos EUA. Essa poupança elevada, combinada com políticas industriais que estimulam a produção, produz sobra de mercadorias que precisa ser escoada para fora. Alicia Garcia‑Herrero, do think tank Bruegel, considera que o modelo exportador chinês contribui para cerca de 40 % do crescimento global e que Pequim mostra pouca disposição para mudar. Fred Neumann, economista‑chefe para Ásia‑Pacífico do HSBC, alerta que os custos das tarifas norte‑americanas são desviados para terceiros países e que elas “não resolvem os desequilíbrios macroeconômicos”.

Tensões políticas e riscos de protecionismo
A crescente frustração leva líderes a ameaçar represálias. O presidente francês Emmanuel Macron admitiu ter cogitado tarifas contra Pequim caso não houvesse redução do déficit comercial com a União Europeia. A opinião pública europeia pressiona por medidas para proteger empregos e setores estratégicos, mas governos como o da Alemanha ponderam que retaliações poderiam atingir exportadores europeus e encarecer a transição energética, fortemente dependente de componentes chineses. Enquanto isso, países emergentes onde chegam carros, têxteis e máquinas chinesas a preços muito inferiores aos locais correm o risco de desindustrialização e endividamento externo.

Mesmo no campo climático, as tensões se refletem. Algumas lideranças europeias defendem que o excesso de produtos chineses contribui para reduzir a inflação e abre espaço para cortes de juros, estimulando a atividade em 2026. Outros argumentam que essa deflação é artificial e decorre de subsídios que distorcem os mercados. O debate evidencia o dilema entre aproveitar produtos mais baratos e proteger a capacidade industrial e tecnológica doméstica.

Perspectivas e caminhos possíveis
O governo chinês reconhece a necessidade de fortalecer a demanda interna. Em reunião do Politburo, autoridades prometeram “expandir continuamente a demanda doméstica” e transformar o consumo no principal motor da economia. Há também iniciativas para fechar plantas de aço, solar e outras indústrias com excesso de capacidade, além de campanhas para promover produtos de maior valor agregado. Entretanto, a prioridade declarada de manter o crescimento em torno de 5 % e o peso das exportações no PIB sugerem que uma mudança estrutural levará tempo.

Para a comunidade internacional, o desafio é encontrar um equilíbrio entre cooperação e proteção. Tarifas unilaterais podem gerar retaliações e fragmentar as cadeias de produção, mas a ausência de resposta alimenta descontentamento social e pressões políticas em vários países. Medidas coordenadas, como regras sobre subsídios, mecanismos de defesa comercial mais ágeis e esforços para estimular o consumo na China, podem mitigar os desequilíbrios.

O excesso de exportações chinesas simboliza um sistema global em transição. Enquanto Pequim continua a produzir e vender ao mundo, governos e empresas terão de adaptar políticas industriais, fortalecer a inovação e, em alguns casos, reinventar modelos de negócio. Somente um diálogo franco e reformas estruturais, na China e em seus parceiros, poderão evitar que a vantagem competitiva do país transforme‑se em uma fonte de instabilidade prolongada.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Balanço 2025 e Desafio 2026

O ano político de 2025 transformou‑se num período de transição em Portugal. Uma sucessão de crises e reformas agitadas alterou o mapa político e preparou o terreno para uma eleição presidencial em janeiro de 2026. A instabilidade começou logo em fevereiro, quando surgiram denúncias de conflito de interesses entre o primeiro‑ministro Luís Montenegro e a consultora de proteção de dados que fundara, Spinumviva. Montenegro recusou ter beneficiado a empresa e convocou um conselho extraordinário de ministros para avaliar a situação. Em março apresentou uma moção de confiança no seu governo minoritário e admitiu que novas eleições poderiam clarificar o impasse. O país voltou às urnas em 18 de maio e a Aliança Democrática (AD) — coligação liderada pelo PSD com o CDS‑PP — manteve a primazia, com cerca de um terço dos votos e 88 deputados. O PS caiu para pouco mais de 22 % dos votos e 58 lugares, enquanto o partido de extrema‑direita Chega ultrapassou os socialistas em deputados (60) embora tenha obtido 22,7 % dos votos. Pedro Nuno Santos demitiu‑se de líder socialista, mas a esquerda fragmentada não conseguiu impedir a continuidade do governo de Montenegro.A nova legislatura começou com a aprovação do Orçamento do Estado para 2025, apresentado ainda em outubro de 2024. O governo prometeu crescimento de 2,1 % e superávit de 0,3 % do PIB, actualizou as tabelas do IRS em 4,6 %, aumentou a isenção do subsídio de alimentação para 10,20 euros, introduziu uma isenção total de IRS para jovens no primeiro ano de trabalho e reduções nos nove anos seguintes, bem como isenções de IMT e imposto de selo para jovens na compra de habitação. As despesas em saúde cresceram para 16,8 mil milhões de euros. Apesar dessas medidas, a oposição criticou o orçamento por favorecer empresas e por não responder à crise habitacional e à inflação.Outro marco de 2025 foi a decisão de reprivatizar a companhia aérea TAP. Em julho, o Conselho de Ministros aprovou um decreto‑lei para vender até 49,9 % do capital da transportadora. Montenegro sublinhou que a operação salvaguardaria as rotas estratégicas e a continuidade do hub de Lisboa, permitindo vender 44,9 % a um ou mais investidores e reservar 5 % para os trabalhadores. O governo advertiu que poderia suspender a privatização se os objectivos não fossem cumpridos. Três grandes companhias europeias — Lufthansa, Air France‑KLM e IAG — manifestaram interesse, e Montenegro afirmou esperar propostas de grupos fora da UE para reforçar a competitividade e as sinergias da TAP.O executivo também apresentou reformas profundas na lei da nacionalidade e na política migratória. As propostas aumentaram para sete anos (dez anos para não lusófonos) o tempo de residência necessário à naturalização, exigiram testes de língua e cultura e eliminaram o acesso à cidadania por ascendência sefardita. Para crianças nascidas em Portugal, pelo menos um progenitor teria de residir legalmente no país há três anos e pedir a nacionalidade. O visto para procura de emprego seria reservado a profissionais altamente qualificados; a reunificação familiar exigiria recursos financeiros mínimos; cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa teriam de obter visto de residência e seria criada uma unidade de fiscalização (UNEF). O governo propôs ainda prorrogar até 15 de outubro de 2025 a validade dos títulos de residência e reforçar o combate à imigração ilegal. Estas mudanças suscitaram debate sobre integração e atração de talento.Em matéria laboral, o governo avançou com um “pacote laboral” que altera mais de uma centena de artigos do código do trabalho. Pretende facilitar despedimentos por justa causa em pequenas e médias empresas, levantar limites à subcontratação e limitar a flexibilidade horária para mães que amamentam. O objectivo declarado é aumentar a produtividade, num país cuja produtividade hora‑trabalhada equivale a 80,5 % da média da UE. Os sindicatos CGTP e UGT consideram que a reforma favorece os empregadores e sacrifica direitos e convocaram a primeira greve geral desde 2013. Em 11 de dezembro, os comboios pararam, centenas de voos foram cancelados e muitas escolas fecharam. Manifestantes marcharam com cartazes a dizer “Não ao pacote laboral” e “Despedir sem razão é cumprir a vontade do patrão”. O governo minimizou o impacto, alegando que a maioria dos trabalhadores do sector privado não aderiu. Após a greve, a ministra Maria do Rosário Ramalho reuniu‑se com a UGT e aceitou negociar alterações; o sindicato considerou o encontro positivo.As eleições autárquicas de 12 de outubro consolidaram a viragem à direita. O PSD venceu em 136 municípios, 22 mais do que em 2021, enquanto o PS caiu para 127. Em Lisboa, o social‑democrata Carlos Moedas foi reeleito com 34,3 % dos votos, superando Alexandra Leitão; no Porto, Pedro Duarte (PSD) obteve 37,3 % e empatou em mandatos com o PS. O PSD também conquistou Braga e Vila Nova de Gaia, enquanto o PS venceu Coimbra e Loures. A coligação PSD/IL/PAN ganhou Sintra com 33,86 %, e em Setúbal a coligação PSD/CDS‑PP venceu por cerca de 1 200 votos. Chega elegeu pela primeira vez um presidente de câmara em São Vicente (Madeira) e conquistou Albufeira no Algarve, sinal do crescimento da extrema‑direita. A abstenção foi de 40,74 %, a mais baixa desde 2005.No plano externo, Portugal consolidou‑se como um dos aliados mais consequentes de Kyiv. O acordo de cooperação em segurança assinado em maio de 2024 comprometeu Lisboa a fornecer pelo menos 126 milhões de euros em apoio militar, mas o país já superara esse valor: entre maio de 2024 e maio de 2025 foram entregues 226 milhões de euros, incluindo helicópteros Ka‑32 e SA‑330 Puma, munições de artilharia e investimento de 52 milhões na Coligação de Drones. Portugal participa nas coalizões internacionais que fornecem veículos blindados, aviação e poder naval e pertence à coligação que treina pilotos ucranianos de F‑16. Em 2025 foi prometido um novo pacote de 220 milhões de euros. O país apoia a utilização de lucros de activos russos congelados para financiar a defesa ucraniana e contribui para o tribunal internacional que julgará o crime de agressão. Nos domínios humanitário e social, Lisboa financia o programa “Grão para a Ucrânia” e prolongou a proteção temporária dos cerca de 54 mil refugiados ucranianos a residir no país. A empresa portuguesa Tekever abriu um escritório na Ucrânia e os seus drones AR5, produzidos em parceria com Kiev, têm causado pesadas perdas ao exército russo.Esse compromisso foi reafirmado durante a visita do primeiro‑ministro a Kyiv em 20 de dezembro de 2025. Luís Montenegro e Volodymyr Zelensky anunciaram a produção conjunta de drones subaquáticos e um fórum económico para 2026, valorizando a cooperação na tecnologia de veículos não tripulados. Montenegro agradeceu a integração dos quase 80 000 ucranianos que vivem em Portugal e destacou o apoio financeiro, humanitário e militar dado desde o início da invasão. O chefe do governo sublinhou que defender a Ucrânia é também defender os valores e interesses europeus, alinhando‑se com a decisão do Conselho Europeu de conceder um empréstimo de 90 mil milhões de euros a Kyiv e discutir o uso de activos russos congelados.O horizonte de 2026 surge carregado de desafios. Em 18 de janeiro os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Uma sondagem do Instituto de Ciências Sociais/ISCTE para o jornal Expresso divulgada em novembro mostrou o líder do Chega, André Ventura, e o almirante Henrique Gouveia e Melo, candidato independente e ex‑coordenador da vacinação contra a COVID‑19, empatados com 18 % das intenções de voto. O ex‑líder social‑democrata Luís Marques Mendes surgia com 16 %, e o antigo secretário‑geral socialista António José Seguro com 10 %. Nenhum candidato deverá vencer à primeira volta, tornando provável um segundo escrutínio a 8 de fevereiro. A presidência tem funções principalmente simbólicas, mas pode dissolver a Assembleia da República; por isso, o resultado influenciará a estabilidade do governo minoritário e o rumo das reformas.Além da eleição presidencial, o debate sobre o pacote laboral continuará em 2026, com negociações entre governo, sindicatos e partidos. A privatização da TAP deverá avançar e poder‑se‑á conhecer o investidor escolhido. O Parlamento discutirá a proposta de reforma das leis de imigração e nacionalidade. Na frente externa, Portugal participará no fórum económico com a Ucrânia e continuará a entregar os 220 milhões de euros de ajuda militar, a treinar pilotos ucranianos e a pressionar pela utilização de activos russos congelados. A expectativa é que o país mantenha o equilíbrio entre crescimento económico, coesão social e solidariedade internacional.No início de 2026, o Presidente da República deixou uma mensagem de esperança. Marcelo Rebelo de Sousa desejou “paz duradoura na Ucrânia, no Médio Oriente e no Sudão” e apelou ao respeito pela Carta das Nações Unidas e pela dignidade humana. Dirigindo‑se aos portugueses, pediu um ano com mais desenvolvimento, justiça, liberdade, igualdade e solidariedade, com mais saúde, educação, habitação, crescimento e emprego. Recordou que a força da democracia está em permitir que o povo escolha ideias, soluções e pessoas novas. Ao evocar os traços de carácter descritos por Eça de Queiroz — franqueza, persistência e esperança — o Presidente ressaltou que os portugueses, “há quase novecentos anos, cá dentro e lá fora, fazem, todos os dias, Portugal”. Esse retrato de resiliência resume o desafio que o país leva para 2026: enfrentar divisões internas, apoiar a Ucrânia contra a agressão russa e construir um futuro mais próspero e justo.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.