El Comercio De La República - A China ganha terreno

Lima -

A China ganha terreno




A corrida global pela inteligência artificial entrou numa fase menos confortável para a OpenAI e para a Anthropic. Durante dois anos, as duas empresas norte-americanas puderam apresentar cada novo modelo como prova de que a fronteira tecnológica continuava concentrada em Silicon Valley. Essa vantagem não desapareceu, mas deixou de parecer intransponível. A China já não surge apenas como um mercado condicionado por restrições a semicondutores avançados. Surge como produtora de modelos competitivos, baratos e suficientemente abertos para conquistar programadores, empresas e investigadores fora das suas fronteiras.

O sinal mais recente veio da Z.ai. O modelo GLM-5.2 aproximou-se dos melhores sistemas norte-americanos em programação e em tarefas executadas por agentes, mas chegou ao mercado com custos muito inferiores e com uma proposta mais flexível para quem pretende instalar, adaptar ou integrar a tecnologia. No início de julho de 2026, numa das principais plataformas públicas de avaliação, os oito modelos abertos mais bem classificados em tarefas de agentes e os dezassete mais bem classificados em programação tinham sido desenvolvidos por equipas chinesas. DeepSeek, Qwen, Kimi e GLM deixaram de ser alternativas de segunda linha. Em vários cenários, tornaram-se a primeira escolha para quem procura eficiência. A mudança não se mede apenas por pontos em tabelas técnicas. Mede-se pela fatura. Os agentes de inteligência artificial consomem grandes quantidades de capacidade computacional porque executam sequências longas de raciocínio, chamam ferramentas, reveem resultados e repetem operações até concluírem uma tarefa. Quando cada etapa é cobrada por volume de utilização, o preço final pode tornar-se imprevisível. Para uma empresa que processa milhões de pedidos, uma diferença aparentemente pequena no custo de cada operação transforma-se rapidamente numa vantagem comercial decisiva.

É nesse terreno que a estratégia chinesa tem sido mais eficaz. Em vez de depender apenas de serviços fechados, vendidos através de interfaces controladas pelo fornecedor, grande parte do ecossistema chinês apostou em modelos com pesos disponíveis, preços agressivos e compatibilidade com infraestruturas menos dispendiosas. A qualidade ainda varia e persistem dúvidas sérias sobre segurança de dados, censura, propriedade intelectual e dependência tecnológica. Ainda assim, a combinação entre desempenho, custo e liberdade de adaptação alterou o equilíbrio do mercado.

A OpenAI e a Anthropic mantêm vantagens poderosas. Têm marcas reconhecidas, relações profundas com grandes empresas, acesso privilegiado a capital, redes de distribuição globais e modelos que continuam entre os mais capazes do mundo. A OpenAI conserva uma base de utilizadores de dimensão extraordinária e a Anthropic consolidou uma posição particularmente forte no trabalho empresarial e na programação. O problema é que essas vantagens custam cada vez mais dinheiro e já não garantem, por si só, margens elevadas ou fidelidade permanente dos clientes.

A aproximação à bolsa tornou essa fragilidade mais visível. A Anthropic apresentou confidencialmente a documentação para uma oferta pública inicial no início de junho. A OpenAI avançou pelo mesmo caminho poucos dias depois, mas passou a ponderar uma estreia apenas em 2027 para preservar a ambição de uma avaliação próxima de um bilião de dólares. A alternativa seria entrar mais cedo com um preço inferior. A hesitação é reveladora. O mercado privado tolera promessas de crescimento durante longos períodos. O mercado bolsista exige contas auditadas, previsibilidade de custos, margens defensáveis e uma explicação convincente sobre o momento em que o investimento maciço em centros de dados começará a produzir lucros duradouros.

Este é o ponto em que a pressão chinesa se encontra com o receio de uma bolha. A OpenAI e a Anthropic podem aumentar rapidamente a faturação e, ao mesmo tempo, continuar a consumir capital a um ritmo difícil de sustentar. Treinar modelos de fronteira, reservar semicondutores, construir centros de dados, contratar investigadores e servir centenas de milhões de pedidos são atividades dispendiosas. Se modelos mais baratos reduzirem o preço médio do mercado, a faturação poderá crescer sem que a rentabilidade acompanhe esse crescimento. A inteligência artificial continuaria a transformar a economia, mas os primeiros líderes não seriam necessariamente os maiores vencedores financeiros.

É neste contexto que surge Donald Trump. A pergunta sobre uma eventual intervenção já tem uma resposta parcial: a intervenção começou. Em 2 de junho de 2026, o Presidente assinou uma ordem que prevê um quadro voluntário para que os criadores de modelos de fronteira facultem ao Governo federal acesso antecipado, até trinta dias antes da disponibilização a parceiros de confiança. O texto rejeita formalmente a criação de uma licença obrigatória, mas estabelece uma estrutura de avaliação federal para capacidades avançadas de cibersegurança e para a seleção de utilizadores com acesso inicial. A prática foi ainda mais longe. Em 12 de junho, a Anthropic recebeu uma diretiva que proibia o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 por qualquer pessoa sem nacionalidade norte-americana, dentro ou fora dos Estados Unidos. Como a empresa não conseguia verificar a nacionalidade de cada utilizador em tempo real, suspendeu os dois modelos para todos. As restrições foram levantadas no final do mês depois de novas salvaguardas, embora o acesso ao Mythos 5 tenha recomeçado de forma limitada. A OpenAI, por seu lado, adiou a disponibilização ampla do GPT-5.6 a pedido do Governo e iniciou uma fase restrita com parceiros identificados perante as autoridades. A distribuição geral começou depois de testes adicionais e de novas reuniões com responsáveis federais.

Washington passou, assim, de comprador e financiador a participante direto no calendário de lançamento de produtos privados. A justificação é a segurança nacional. Modelos com capacidades avançadas de programação podem encontrar vulnerabilidades, automatizar operações cibernéticas e reduzir o nível de conhecimento necessário para realizar ataques. A mesma tecnologia também permite corrigir falhas, proteger infraestruturas e acelerar a defesa. O dilema não está em reconhecer o risco. Está em decidir quem controla o acesso, por quanto tempo e com que critérios.

A política de Trump contém uma contradição evidente. A Administração afirma que os Estados Unidos não podem perder a liderança por excesso de regulação, mas criou mecanismos que podem atrasar as empresas norte-americanas precisamente quando os concorrentes chineses ganham terreno. A limitação temporária dos modelos da Anthropic e o atraso do GPT-5.6 aumentaram o interesse internacional por alternativas chinesas. Uma medida concebida para proteger a vantagem dos Estados Unidos pode, se for mal calibrada, acelerar a adoção do rival.

Há ainda uma dimensão financeira. Trump declarou estar a estudar formas de permitir que a população beneficie diretamente da riqueza criada pela inteligência artificial. A OpenAI terá discutido a possibilidade de entregar ao Governo federal uma participação de cinco por cento e terá defendido soluções semelhantes para outras empresas norte-americanas. Não existe um acordo confirmado. Mesmo assim, a simples discussão mostra até onde pode chegar a aproximação entre poder político, capital público e empresas de fronteira.

Uma participação estatal poderia dar ao Governo uma parte das futuras valorizações e tornar politicamente mais aceitável o apoio a infraestruturas energéticas, semicondutores, contratos federais e investigação. Também criaria problemas difíceis. O Estado seria simultaneamente regulador, cliente, acionista e responsável pela segurança nacional. Poderia favorecer determinadas empresas, reduzir a concorrência interna e transformar decisões técnicas em disputas políticas. Para a OpenAI, a proximidade a Washington poderia facilitar financiamento e acesso ao mercado federal, mas aumentaria o escrutínio e a dependência de uma Administração cujas prioridades podem mudar.

A Anthropic enfrenta um risco diferente. A empresa construiu parte da sua identidade em torno de limites de utilização e de salvaguardas mais rígidas. O confronto com o aparelho de defesa norte-americano mostrou que essa posição pode ter custos comerciais e jurídicos. Ao mesmo tempo, o episódio reforçou a perceção de que os seus modelos têm capacidades estratégicas reais. A empresa precisa de convencer investidores de que consegue proteger a sua autonomia, manter contratos empresariais e crescer sem ficar permanentemente presa a conflitos com o Governo.

A disputa com a China também entrou no domínio da propriedade intelectual. Empresas norte-americanas acusam grupos chineses de usar grandes volumes de respostas de modelos avançados para treinar sistemas concorrentes. Esta técnica, conhecida como destilação, é comum dentro da indústria, mas torna-se controversa quando envolve recolha automatizada, contas falsas ou violação de condições de utilização. A Anthropic acusou a Alibaba de uma operação deste tipo. A empresa chinesa não apresentou uma resposta pública detalhada e proibiu entretanto os seus trabalhadores de usar o Claude Code, depois de surgirem preocupações com mecanismos capazes de identificar ligações à China. O conflito já não se limita a chips ou tarifas. Chegou às contas de utilizador, aos servidores intermediários e ao próprio fluxo de dados que alimenta os modelos.

Pequim, por sua vez, estuda limitar o acesso estrangeiro aos modelos chineses mais avançados. Autoridades reuniram-se com empresas como Alibaba, ByteDance e Z.ai para discutir controlos sobre tecnologia fechada e sobre versões com pesos disponíveis. Não há ainda uma decisão final, e as medidas poderão aplicar-se apenas a futuros sistemas. A hipótese é, contudo, significativa. A China beneficiou da abertura dos seus modelos para aumentar influência, criar dependência e demonstrar que consegue competir apesar das restrições a semicondutores. Fechar essa porta protegeria ativos estratégicos, mas reduziria uma das suas armas comerciais mais eficazes.

Forma-se, assim, uma fronteira digital em duas direções. Os Estados Unidos tentam impedir que capacidades de ponta cheguem a adversários e estudam formas de proteger modelos contra cópia. A China considera fazer o mesmo. No meio ficam milhares de empresas, universidades e programadores que combinam tecnologias de ambos os lados. Quanto mais rígidas forem as barreiras, maior será o incentivo para construir cadeias tecnológicas regionais, duplicar infraestruturas e substituir fornecedores por razões políticas, mesmo quando a alternativa é mais cara ou menos capaz.

Para a Europa, o problema é especialmente delicado. Empresas europeias procuram modelos competitivos, proteção de dados, preços previsíveis e continuidade de serviço. Uma arquitetura dependente de um único fornecedor norte-americano pode ficar exposta a decisões de Washington. Uma arquitetura assente apenas em modelos chineses pode enfrentar riscos de segurança, sanções e futuras restrições de Pequim. A resposta mais prudente passa por diversificar modelos, reforçar capacidade computacional própria e investir em sistemas europeus que possam ser auditados e adaptados localmente. Trump pode intervir de várias formas: acelerar o licenciamento de redes elétricas, centrais e centros de dados, garantir contratos públicos, financiar produção de semicondutores, apertar controlos de exportação, combater a destilação não autorizada ou até apoiar uma participação pública nas maiores empresas. Algumas dessas medidas podem reforçar a base industrial dos Estados Unidos. Outras podem proteger empresas específicas sem resolver o problema essencial. Nenhum decreto reduz automaticamente o custo de inferência, melhora um modelo ou cria uma comunidade global de programadores.

A China demonstrou que eficiência, abertura e velocidade de execução podem compensar limitações no acesso aos melhores chips. Os Estados Unidos continuam a dispor de mais capital, infraestruturas poderosas, universidades de topo, grandes plataformas de distribuição e uma concentração única de talento. A vantagem norte-americana é real, mas deixou de ser cómoda. A competição já não opõe modelos excelentes a cópias baratas. Opõe ecossistemas com estratégias diferentes para preço, acesso, segurança e poder político.

A intervenção de Trump poderá comprar tempo e proteger ativos sensíveis. Não será, por si só, um resgate para a OpenAI e para a Anthropic. Se fechar o mercado, atrasar lançamentos e favorecer um pequeno grupo de empresas, poderá tornar os concorrentes chineses ainda mais atraentes. Se melhorar energia, investigação, semicondutores, ciberdefesa e acesso responsável, poderá reforçar todo o ecossistema norte-americano. A diferença entre essas duas vias decidirá muito mais do que a próxima versão de um chatbot. A Casa Branca pode condicionar um lançamento, bloquear um contrato ou fechar uma fronteira digital. Não consegue, por decreto, tornar um modelo mais barato, uma empresa rentável ou um ecossistema mais atrativo. É aí que a corrida será decidida.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Cripto sob travão de 24h

O Banco Central do Brasil colocou em discussão uma medida que poderá obrigar prestadores de serviços de ativos virtuais a manter em análise, durante um período máximo de 24 horas, determinadas transferências de criptoativos para o estrangeiro ou para carteiras de autocustódia. A proposta abrangeria operações de valor igual ou superior ao equivalente a 10 mil dólares, quer numa única ordem, quer na soma das movimentações feitas pelo mesmo cliente ao longo de um dia.A formulação provocou uma reação imediata porque atinge precisamente uma das características mais valorizadas das stablecoins: a possibilidade de movimentar valor de forma quase instantânea, a qualquer hora e sem depender dos horários tradicionais do sistema bancário. Ainda assim, a realidade é menos simples do que a ideia de um bloqueio geral. À data de 11 de julho de 2026, não tinha sido publicada uma norma definitiva que impusesse esta retenção. O que existe é uma proposta normativa apresentada ao setor, com prazo para observações terminado a 2 de julho.O que está realmente em causaA medida foi discutida com associações representativas do mercado no final de junho. O desenho apresentado prevê que as empresas reguladas possam reter preventivamente uma transferência antes de a concluir, desde que estejam em causa envios para plataformas situadas no estrangeiro ou para endereços controlados diretamente pelo próprio titular.O limite de 10 mil dólares seria apurado tanto por operação como pelo total diário do cliente. Assim, várias ordens de menor dimensão poderiam ser tratadas em conjunto caso atingissem aquele montante no mesmo dia. A retenção poderia durar até 24 horas, mas não teria de esgotar esse prazo. A transferência poderia ser libertada mais cedo se a empresa concluísse que o risco é reduzido.Na análise, os prestadores teriam de considerar o perfil do cliente, o padrão da operação, a contraparte, a jurisdição de destino e outros sinais relevantes para a prevenção de fraude, branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo e ataques informáticos. A proposta também aponta para um reforço do registo diário de fraudes e tentativas de fraude, aproximando as obrigações do setor cripto das que já existem noutros segmentos financeiros.Não se trata de uma proibição geralA expressão travar criptos é eficaz como manchete, mas pode induzir em erro. A proposta não proíbe a compra, a venda ou a detenção de criptoativos. Também não confisca ativos, não entrega as chaves privadas ao Banco Central e não impede transferências feitas diretamente entre carteiras que já estejam fora de um intermediário regulado.O efeito seria mais limitado e, ao mesmo tempo, bastante concreto. Quando uma pessoa ou empresa pedisse a uma plataforma regulada que enviasse ativos para o estrangeiro ou para uma carteira própria, a ordem poderia ficar pendente durante o período de verificação. Durante esse intervalo, o cliente não teria disponibilidade imediata sobre os ativos envolvidos. Para quem gere tesouraria, arbitragem, pagamentos internacionais ou necessidades urgentes de liquidez, um dia pode representar uma diferença material.O centro da discussão está nas stablecoinsO alvo principal são as stablecoins, criptoativos concebidos para acompanhar o valor de uma moeda oficial, sobretudo o dólar. No Brasil, estes instrumentos deixaram há muito de ser uma parcela secundária do mercado. Os dados declarados relativos a 2025 apontam para um volume próximo de 506 mil milhões de reais em operações com criptoativos. Cerca de 80 por cento desse total correspondeu a stablecoins, com a Tether a representar aproximadamente 72 por cento de todo o volume declarado.A base de pessoas que declarou criptoativos também cresceu de forma acelerada e chegou a cerca de 4,6 milhões no final de 2025. Estes números exigem prudência, porque dependem de declarações e podem incluir diferenças metodológicas ou erros de preenchimento. Ainda assim, mostram uma tendência inequívoca: no mercado brasileiro, o chamado dólar digital tem um peso muito superior ao de uma simples ferramenta de negociação especulativa.A mesma direção aparece nos fluxos externos. No primeiro trimestre de 2026, as compras líquidas de criptoativos no estrangeiro feitas por residentes brasileiros atingiram cerca de 6,9 mil milhões de dólares. Quase todo esse montante, aproximadamente 6,8 mil milhões, esteve ligado a stablecoins. Para muitos utilizadores, estes ativos funcionam como proteção cambial, reserva de liquidez, meio de pagamento, instrumento de remessa e ponte para outros mercados digitais.É precisamente esta escala que explica a atenção do regulador. Quando uma stablecoin ligada ao dólar passa a ser usada para transferir valor para fora do país, a operação aproxima-se economicamente de uma remessa cambial, ainda que a liquidação ocorra numa rede blockchain.Uma regulação construída por etapasA proposta de retenção não surgiu isoladamente. O Brasil aprovou em 2022 a lei que definiu as linhas gerais para os serviços de ativos virtuais. No ano seguinte, o Banco Central recebeu competência para regular e supervisionar os prestadores abrangidos. Em novembro de 2025 foram publicadas regras detalhadas sobre autorização, funcionamento, governação, segurança, proteção do cliente, prevenção de ilícitos e operações cambiais. Grande parte desse quadro entrou em vigor em fevereiro de 2026.A partir daí, determinadas atividades com ativos virtuais passaram a integrar formalmente o mercado cambial. Entre elas estão pagamentos e transferências internacionais, movimentações entre prestadores e carteiras de autocustódia e a compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda oficial. O reporte detalhado destas operações ao Banco Central foi posteriormente ajustado para começar com as transações realizadas a partir de novembro de 2026. Outro passo ocorreu no final de abril, quando foi vedado aos prestadores do serviço de pagamento ou transferência internacional o uso de ativos virtuais para liquidar a relação entre a entidade brasileira e a sua contraparte no estrangeiro. Esta regra, com entrada em vigor prevista para outubro de 2026, não impede um particular de comprar stablecoins. Impede, isso sim, que determinados prestadores usem criptoativos como canal interno de liquidação no modelo regulado de pagamentos internacionais.Em junho, o Banco Central também notificou participantes do mercado para interromper operações cambiais ligadas à importação de ativos virtuais por fundos de investimento quando a estrutura configurasse intermediação. Dias depois, admitiu a necessidade de distinguir essa atividade de operações legítimas por conta própria, incluindo certas formas de arbitragem realizadas no livro de ordens das plataformas. Esta sequência ajuda a compreender a sensação de aperto regulatório que atravessa o mercado.O argumento da segurançaA justificação central para o período de 24 horas é simples. As transferências em blockchain podem tornar-se irreversíveis poucos minutos depois de serem transmitidas. Se o cliente estiver a agir sob coação, se a conta tiver sido tomada por terceiros ou se o endereço de destino estiver associado a fraude, a recuperação dos ativos poderá ser extremamente difícil.Uma pausa cautelar oferece tempo para confirmar a identidade, rever o comportamento da conta, verificar a origem da ordem, analisar endereços em cadeia e cruzar alertas sobre contrapartes e jurisdições de risco. O regulador entende que esta janela pode evitar prejuízos antes de os ativos saírem do ambiente supervisionado.Há ainda uma diferença importante entre a proposta e um bloqueio automático de um dia. A libertação antecipada seria possível quando a operação passasse nos controlos internos. Em teoria, uma plataforma com sistemas robustos e informação suficiente poderia concluir uma análise em minutos. Na prática, contudo, a existência de responsabilidade regulatória pode levar as empresas a adotar uma postura conservadora, sobretudo em operações de valor elevado ou com destino difícil de validar.O problema da proporcionalidadeA crítica mais forte não incide sobre o objetivo de combater a fraude, mas sobre a escolha de uma retenção baseada sobretudo no valor. Uma transferência elevada não é necessariamente suspeita e uma operação criminosa não precisa de ultrapassar 10 mil dólares. Um limite fixo pode atingir empresas legítimas, pequenos exportadores, prestadores de serviços internacionais, investidores profissionais e famílias que movimentam poupanças, enquanto agentes mal-intencionados podem tentar fracionar ordens ou recorrer a canais fora do sistema regulado.A soma diária reduz parte do risco de fracionamento, mas aumenta a complexidade operacional. Como o limiar é expresso em dólares, a plataforma terá de acompanhar a taxa de câmbio e a variação do próprio criptoativo. Uma ordem que fique abaixo do limite num momento poderá ultrapassá-lo depois de uma oscilação de preço, criando dúvidas sobre o instante exato em que a regra deve ser aplicada.A retenção também altera a natureza económica do produto. Uma liquidação prevista para o próprio dia pode passar para o dia seguinte. Em mercados que funcionam continuamente, 24 horas podem envolver variações de preço, perda de oportunidades, necessidade de capital adicional e incumprimento de prazos comerciais. O custo não se resume ao desconforto do cliente. Pode refletir-se na competitividade das plataformas brasileiras face a concorrentes estrangeiras.As associações do setor sustentam ainda que as maiores empresas já usam análise de risco, monitorização em cadeia e bloqueios seletivos. Nesta perspetiva, uma retenção universal acima de um valor definido seria redundante e menos eficiente do que uma abordagem baseada em sinais concretos de risco. O Banco Central, por seu lado, procura estabelecer um padrão mínimo comum para evitar que a segurança dependa apenas da qualidade de cada operador.A autocustódia no centro do conflitoA autocustódia significa que o titular controla diretamente as chaves necessárias para movimentar os seus ativos. Para uma parte do mercado, este princípio é essencial porque reduz a dependência de intermediários e protege o utilizador contra falências, congelamentos ou falhas de plataformas.A proposta não elimina a autocustódia. O Banco Central não ganha acesso à carteira privada nem passa a autorizar cada movimento feito depois de os ativos chegarem ao destino. O controlo incide no ponto de saída da plataforma regulada. Ainda assim, tratar a transferência para uma carteira própria como uma operação que justifica atenção reforçada tem um peso simbólico e prático. Para os defensores da autonomia financeira, cria-se a ideia de que retirar ativos de um intermediário é, por definição, mais arriscado. O regulador vê o mesmo movimento de forma diferente. Quando os ativos saem para um endereço autocustodiado, a entidade supervisionada perde capacidade para acompanhar o beneficiário final e intervir antes de nova movimentação. O conflito nasce desta assimetria: aquilo que o utilizador considera soberania, o supervisor pode considerar perda de rastreabilidade.Existe ainda um risco de efeito contrário. Se o custo ou o atraso se tornarem excessivos, alguns clientes poderão migrar para plataformas estrangeiras, negociação direta entre particulares, mercados informais ou protocolos de finanças descentralizadas. Nesse cenário, o Banco Central teria menos visibilidade sobre os fluxos que pretende controlar. A eficácia da medida dependerá, portanto, da capacidade de manter os utilizadores dentro do perímetro regulado.Fiscalidade não é o mesmo que retençãoO debate também foi associado ao receio de maior cobrança fiscal. A ligação não é absurda, porque as stablecoins permitem converter reais em instrumentos ligados ao dólar e movimentá-los internacionalmente com menos fricção do que nos canais tradicionais. Quanto maior for a rastreabilidade, maior será a capacidade das autoridades para comparar operações, declarações e obrigações fiscais.Mas a retenção de 24 horas, por si só, não cria um novo imposto, não define uma taxa cambial e não autoriza a apropriação dos ativos. O fundamento apresentado para a proposta é a prevenção de fraude e de ilícitos financeiros. Uma eventual utilização dos dados para fiscalização fiscal é uma consequência possível do enquadramento regulatório mais amplo, não o conteúdo direto da pausa cautelar.Também é importante separar o Banco Central do poder de criar tributos. A autoridade monetária pode regular prestadores e operações no âmbito das competências que lhe foram atribuídas. A criação ou alteração de impostos exige base legal própria. Confundir as duas matérias torna o debate mais ruidoso e menos preciso.O mundo não segue uma única direçãoA crítica de que o Brasil está a caminhar contra o resto do mundo ganha força quando se observa a expansão internacional das stablecoins. No dia 30 de junho foi anunciada a Open USD, uma nova moeda digital ligada ao dólar, apoiada por um consórcio de mais de 140 empresas dos setores financeiro, tecnológico e cripto. Entre os participantes encontram-se redes de cartões, bancos, gestoras de ativos, plataformas digitais e empresas de comércio eletrónico. O lançamento operacional está previsto para mais tarde em 2026.O projeto promete emissão e resgate sem custos para empresas, elevada capacidade de processamento e partilha de parte do rendimento das reservas entre os participantes. O anúncio mostra que as stablecoins estão a passar de instrumento de nicho para infraestrutura de pagamentos e liquidação adotada por grandes grupos internacionais. No entanto, este avanço não significa ausência de regulação. Os Estados Unidos criaram um quadro federal para emissores de stablecoins. A União Europeia aplica regras sobre reservas, governação, resgate e autorização. Singapura reforçou mecanismos contra fraude em pagamentos digitais. A Coreia do Sul tem debatido limites para transferências entre plataformas locais, carteiras privadas e entidades estrangeiras. A tendência global combina adoção com supervisão mais exigente.A história da Libra, anunciada pelo Facebook em 2019 e mais tarde rebatizada como Diem, é instrutiva. O projeto reuniu grandes empresas, mas enfrentou oposição política e regulatória relacionada com soberania monetária, privacidade, concorrência e risco financeiro. Os ativos acabaram vendidos em 2022 e a iniciativa foi encerrada. A Open USD nasce com uma estrutura mais distribuída e com participantes já habituados a operar sob regulação. Mesmo assim, terá de provar que a governação, as reservas e o direito de resgate funcionam em situações de tensão.O papel do Congresso e os limites do reguladorO Banco Central dispõe de competência legal para regulamentar e supervisionar os prestadores de serviços de ativos virtuais. Isso não significa que qualquer restrição seja automaticamente válida. Uma norma definitiva terá de respeitar os princípios da livre iniciativa, concorrência, proteção do consumidor, segurança, privacidade e proporcionalidade. A questão jurídica mais sensível será saber se uma retenção geral baseada em valor é necessária e adequada ou se o mesmo objetivo poderia ser alcançado com medidas menos gravosas e mais orientadas pelo risco. Uma análise de impacto regulatório sólida, acompanhada de dados brasileiros e critérios transparentes, reduziria a insegurança jurídica.O Congresso pode alterar a lei, convocar autoridades, fiscalizar a execução da política pública e estabelecer limites mais claros. Não precisa, porém, de aprovar cada regra técnica emitida pelo Banco Central dentro das competências já delegadas. O espaço para contestação surgirá se a versão final ultrapassar essas competências ou restringir direitos sem fundamentação suficiente.O que pode mudar para clientes e empresasPara a maioria dos pequenos utilizadores, uma regra limitada a 10 mil dólares poderá não ser sentida numa transferência isolada. A soma diária, contudo, exige atenção. Várias operações podem ultrapassar o limiar sem que o cliente perceba de imediato.Empresas e investidores que movimentam valores elevados terão de rever prazos de liquidação, contratos, margens de segurança e gestão de tesouraria. As plataformas precisarão de sistemas capazes de agregar ordens, converter valores, analisar risco em tempo real, informar claramente o cliente e documentar o motivo da retenção ou da libertação antecipada. A qualidade da comunicação será decisiva. Uma retenção sem explicação pode parecer um bloqueio arbitrário. Uma regra bem definida deverá indicar quando o prazo começa, quais os critérios de análise, como o cliente é avisado, em que situações pode apresentar informação adicional e o que acontece se a empresa não concluir a avaliação dentro das 24 horas.O verdadeiro teste da propostaO confronto não é apenas entre um Banco Central hostil e um mercado inovador. É um conflito entre duas propriedades do dinheiro digital. De um lado está a velocidade, que reduz custos e permite liquidação contínua. Do outro está a possibilidade de interromper uma operação antes de um prejuízo irreversível.Uma boa regra terá de provar que o benefício de segurança compensa o custo económico e que a autocustódia não é tratada como suspeita por defeito. Terá também de evitar que utilizadores legítimos sejam empurrados para canais menos transparentes. A conclusão, por agora, é clara. Sim, existe uma proposta para reter durante até 24 horas certas transferências de criptoativos acima de 10 mil dólares. Não, essa regra ainda não estava em vigor a 11 de julho de 2026. O desfecho dependerá do texto final, da fundamentação apresentada pelo Banco Central e da forma como forem incorporadas as críticas do setor. O que está em jogo não é apenas um prazo. É a definição de quanto controlo o sistema financeiro tradicional poderá exercer sobre a circulação de dólares digitais no Brasil.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.