El Comercio De La República - Guerra, rejeição e ormuz

Lima -

Guerra, rejeição e ormuz




A ofensiva que os Estados Unidos, ao lado de Israel, lançaram contra o Irão colocou o presidente Donald Trump no centro de um impasse. Nas duas semanas que se seguiram aos primeiros bombardeamentos, o líder norte‑americano alternou declarações de vitória com relatos de que o conflito mal começou. Num dia afirma que os objectivos “estão praticamente cumpridos”; no dia seguinte promete “ir além” e anuncia que a retirada será “em breve, mas não agora”. Essa oscilação de discursos evidencia a ausência de uma estratégia de saída definida e provoca dúvidas sobre os planos de reconstrução pós‑guerra. Enquanto o primeiro‑ministro israelita traça metas claras de mudança de regime no Irão, Trump mostra‑se perdido entre a busca por um desfecho rápido e a necessidade de mostrar força.

A falta de rumo repercute no seu próprio governo. O Departamento de Defesa assinala em mensagens nas redes sociais que “a luta apenas começou”, enquanto o presidente repete que o Irão já não tem marinha nem comunicação. Ainda assim, em outras ocasiões ele admite que parte da capacidade militar iraniana continua intacta e que a capacidade de mísseis e drones diminuiu apenas parcialmente. Este contraste desperta críticas de aliados e leva mesmo a demissões no seu gabinete de segurança, como a do chefe do contraterrorismo que renunciou por discordar da condução da guerra. Trump também adiou reuniões com a China e procura apoio internacional, incluindo uma conversa telefónica com Vladimir Putin, para tentar uma mediação que lhe permita sair do conflito sem parecer derrotado.

Além do desgaste político, a guerra consome recursos astronómicos; estima‑se que o esforço militar custe cerca de mil milhões de dólares por dia. Investidores e aliados do Golfo Pérsico mostram‑se inquietos com a incerteza, e alguns membros do partido republicano receiam que a falta de um plano claro prejudique as suas próprias campanhas eleitorais. A fragilidade da estratégia americana torna‑se ainda mais evidente perante a capacidade iraniana de prolongar o conflito – porta‑vozes da Guarda Revolucionária afirmam que o país pode resistir a seis meses de combate intenso. Esse jogo de resistência, aliado à ambiguidade de Trump, fez surgir a alcunha “Trump Always Caves Out” (TACO) entre críticos, insinuando que o presidente tende a recuar sob pressão.

Rejeição crescente a Lula
Enquanto a Casa Branca tenta manter apoio doméstico, no Brasil o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um cenário desfavorável. Pesquisas de opinião divulgadas no início de 2026 indicam que 57 % dos brasileiros desaprovam a sua gestão, contra 34 % de aprovação. Trata‑se do maior nível de rejeição desde meados de 2025 e representa uma diferença de 23 pontos percentuais entre aprovação e reprovação. A desaprovação é mais acentuada entre homens, pessoas com idades entre 25 e 44 anos e famílias de rendimentos mais elevados. Nas regiões Centro‑Oeste e Sul, a rejeição supera 65 %, enquanto o Nordeste permanece relativamente mais favorável a Lula, embora dividido.

Os analistas observam que a queda de popularidade não se limita à avaliação do governo. A rejeição pessoal ao presidente tem crescido mais rápido do que a insatisfação com as políticas públicas. Desde 2024, a diferença entre aprovação e reprovação praticamente duplicou, sinal de um desgaste que pode comprometer uma eventual tentativa de reeleição. Muitos brasileiros que apoiaram Lula em 2022 queixam‑se da persistência de problemas económicos, da inflação e da percepção de que a agenda social não tem sido suficiente para reduzir o desemprego. Comentadores apontam que o governo enfrenta um eleitorado mais pragmático, composto por classes médias moderadas que rejeitam um Estado intervencionista.

No debate público, circulam críticas severas que comparam o impacto das políticas governamentais às consequências da pandemia. Figuras do sector empresarial afirmam que mais empresas fecharam durante a actual administração do que no auge da COVID‑19. Nas redes sociais e em debates televisivos, muitos cidadãos manifestam cansaço e afastam‑se do noticiário para preservar a saúde mental; outros recorrem ao humor e à ironia para lidar com a saturação de notícias e discursos longos. Esse clima de fadiga e desencanto reflecte‑se nas sondagens e obriga o governo a reavaliar a estratégia de comunicação e as prioridades económicas.

O mundo refém do Estreito de Ormuz
A terceira peça deste mosaico geopolítico é o Estreito de Ormuz. Situado entre o Irão e Omã, com apenas algumas dezenas de quilómetros de largura, esse corredor marítimo permite a passagem de cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, quase um quinto do consumo mundial. Quando, em 2 de março, a Guarda Revolucionária iraniana declarou o estreito formalmente fechado e ameaçou atacar qualquer navio que tentasse atravessá‑lo, o mercado global de energia entrou em convulsão. O preço do Brent, que rondava os 70 dólares, chegou a 119 dólares na segunda semana de março, marcando a cotação mais alta desde 2022. Poucos dias depois, nos Estados Unidos, o barril ultrapassou os 100 dólares pela primeira vez desde as consequências da guerra da Rússia na Ucrânia.

A interrupção do tráfego levou produtores a desligar poços no Iraque e a reduzir drasticamente a produção para evitar a saturação de tanques. Estima‑se que, se o bloqueio persistir, a produção regional possa cair entre quatro e nove milhões de barris por dia. Ao mesmo tempo, a incerteza elevou ainda mais os custos de seguros e fretes e fez disparar os preços do gás natural liquefeito, especialmente na Europa e na Ásia, onde se concentram 90 % das cargas que transitam por Ormuz. A situação é grave para países como a China, que dependem do estreito para mais de um terço das suas importações de energia. 

O impacto não se limita ao petróleo. Fertilizantes, alumínio e outros produtos primários também enfrentam atrasos; fundições do Médio Oriente declararam força maior e reduziram produção. Algumas companhias europeias estimam que a recuperação possa demorar até doze meses. Historiadores da energia comparam a actual crise aos choques petrolíferos de 1973 e 1979 e alertam que, se o bloqueio se prolongar, poderá desencadear recessões globais. Para o Irão, a pressão económica sobre os Estados Unidos e os seus aliados é uma arma tão eficaz quanto mísseis ou drones.

Interdependências e desafios
A conjunção destes três temas — a guerra sem plano aparente conduzida por Trump, a crescente impopularidade de Lula e a vulnerabilidade do mundo ao bloqueio de Ormuz — evidencia a fragilidade das lideranças e da ordem internacional. A imprevisibilidade de Washington alimenta volatilidade nos mercados e pode precipitar uma crise económica global; a perda de popularidade do presidente brasileiro abre espaço a alternativas políticas num contexto já polarizado; e o estreito recorda que a geografia marítima continua a ser uma alavanca de poder decisiva. 

Os próximos meses exigirão negociações diplomáticas cuidadosas para evitar uma escalada no Golfo Pérsico, políticas económicas que respondam à insatisfação social no Brasil e investimentos em rotas e fontes de energia alternativas. Mais do que nunca, a estabilidade global depende de soluções coordenadas que ultrapassem interesses imediatos.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Quando aperta, bitcoin salva

À medida que a guerra com o Irão, a volatilidade do petróleo e a desaceleração das bolsas testam a resiliência dos mercados, um activo digital volta a ocupar o centro das atenções. Nas últimas semanas, o Bitcoin subiu cerca de 7 %, superando o ouro e os principais índices bolsistas, mesmo enquanto o preço do petróleo disparava mais de 40 % e o índice MSCI World recuava 4 %. Dados compilados por analistas indicam que os fundos negociados em bolsa de bitcoin captaram cerca de 1,5 mil milhões de dólares em entradas em março, elevando para aproximadamente 6,1 % a fatia de bitcoins detida por estes veículos. Esta procura institucional ajuda a explicar porque é que a maior criptomoeda do mundo se manteve acima dos 73 000 dólares, mesmo depois de ter sofrido uma queda momentânea para 63 038 dólares durante os bombardeamentos de 28 de fevereiro.O relatório de uma corretora de Wall Street aponta que a estrutura de propriedade do mercado mudou rapidamente: grandes tesourarias corporativas e fundos de pensões estão a absorver oferta em cada recuo. Nos últimos meses, produtos negociados em bolsa atraíram 2,1 mil milhões de dólares em novos aportes, enquanto uma empresa de tecnologia adquiriu mais 22 337 bitcoins por 1,57 mil milhões de dólares, elevando a sua posição para 761 068 unidades. Ao mesmo tempo, cerca de 60 % da oferta total de bitcoins não é movimentada há mais de um ano, sugerindo que os detentores de longo prazo continuam dominantes. Esta estrutura de mercado é um dos factores que contribuem para a percepção de que a moeda digital desempenha um papel de refúgio em tempos de incerteza.Este protagonismo do Bitcoin surge num contexto de transição económica global. A erosão do petrodólar, a desvalorização do dólar e a corrida dos bancos centrais a reservas não soberanas criam, segundo alguns gestores de activos, o ambiente mais favorável da história para as criptomoedas. A procura por uma reserva de valor independente dos governos cresce porque muitos países reavaliam a forma de armazenar riqueza, e há quem veja até incentivos geopolíticos para inflacionar o Bitcoin e desvalorizar o ouro. Apesar disso, estes especialistas reconhecem que o activo ainda apresenta correlação com o índice Nasdaq 100 e que os bancos centrais não compram bitcoin; a migração do estatuto de activo emergente para reserva de valor consolidada poderá levar anos.Ao nível micro, as discussões nas redes sociais ecoam esta polarização. Muitos comentadores valorizam o Bitcoin como arma contra a irresponsabilidade fiscal dos governos e a burocracia. Defendem que, face à perda de poder de compra das moedas fiduciárias, o bitcoin é a melhor forma de proteger a poupança. Outros salientam que a actual correlação com o mercado accionista expõe a moeda digital a riscos semelhantes aos de títulos de tecnologia e que a volatilidade permanece elevada, mesmo que a adopção institucional aumente. Há quem critique o ouro, considerando-o um activo obsoleto, e quem interprete a recente subida das criptomoedas como resultado de robots ou marketing excessivo. Este debate revela que a narrativa de “quando a coisa aperta, só o Bitcoin salva” está longe de ser consensual: para alguns, trata‑se de um refúgio indispensável; para outros, de um investimento especulativo que ainda não substitui os instrumentos tradicionais.No horizonte, a ascensão do Bitcoin em contexto de turbulência geopolítica levanta questões estratégicas. A criptomoeda nasceu em 2009, no auge da crise financeira, como um sistema monetário descentralizado e limitado a 21 milhões de unidades. Desde então, evoluiu de curiosidade de nicho para activo com capitalização superior a um bilião de dólares e presença crescente em portefólios institucionais. A recuperação recente, sustentada por entradas em ETFs e pelo interesse de fundos soberanos, mostra que o mercado está a testar a maturidade desta tecnologia. Ainda assim, analistas lembram que a subida pode ser temporária: a valorização até perto dos 80 000 dólares pode perder força nos próximos meses. Para quem procura preservar riqueza num cenário de incerteza, a lição é clara: diversificar continua a ser a estratégia mais prudente, reconhecendo que nem ouro, nem petróleo, nem Bitcoin estão imunes aos choques de liquidez.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.