El Comercio De La República - A conta da IA chegou

Lima -

A conta da IA chegou




Durante a primeira fase da corrida da inteligência artificial, o mercado premiou anúncios, demonstrações impressionantes e promessas de produtividade quase ilimitada. Em 2026, o centro da discussão mudou. A tecnologia continua avançando, mas a pergunta decisiva já não é se a IA será transformadora. A pergunta é quem conseguirá financiar a infraestrutura necessária, converter capacidade computacional em receita recorrente e preservar margens antes que o custo do capital comece a cobrar resultados.


Essa mudança explica a reação cada vez mais severa dos investidores aos balanços das grandes empresas de tecnologia. A IA deixou de ser apenas uma linha de inovação e passou a ocupar o centro dos orçamentos de capital. Servidores, chips, redes, energia, refrigeração, terrenos, contratos de longo prazo e centros de dados formam uma cadeia de despesas que cresce muito mais depressa do que os serviços pagos por consumidores e empresas. O mercado, que durante anos aceitou gastos em nome de uma futura liderança tecnológica, começou a exigir uma resposta simples: quando essa liderança produzirá caixa suficiente para pagar a própria expansão?


O investimento virou teste de caixa

Os números recentes da Alphabet mostram com clareza essa nova fase. A controladora do Google investiu 44,9 bilhões de dólares no segundo trimestre, sobretudo em infraestrutura técnica destinada à inteligência artificial, e encerrou o período com fluxo de caixa livre negativo de 5,9 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, elevou sua projeção de investimentos para 2026 a uma faixa entre 195 bilhões e 205 bilhões de dólares. Não se trata de uma empresa sem receitas para sustentar a estratégia. A divisão de computação em nuvem cresceu fortemente, ampliou a rentabilidade e acumulou uma carteira expressiva de contratos. O problema é a distância temporal entre a despesa imediata e o retorno que será reconhecido ao longo de vários anos.


A Tesla apresentou a mesma tensão sob outra forma. O grupo acelerou os gastos com autonomia, robótica, inteligência artificial e infraestrutura, elevou o investimento trimestral para 5,8 bilhões de dólares e registrou fluxo de caixa livre negativo de 1,1 bilhão de dólares. A empresa aposta que veículos autônomos, robôs humanoides e software gerarão margens superiores às do negócio automotivo tradicional. Contudo, essa tese exige capital antes de oferecer prova comercial suficiente. Quando o negócio principal enfrenta pressão sobre preços e rentabilidade, cada dólar destinado ao futuro passa a ser avaliado com mais rigor. A dimensão do movimento vai muito além de duas empresas. As estimativas para cinco grandes grupos de tecnologia e infraestrutura digital apontam investimentos de aproximadamente 730 bilhões de dólares em 2026. Mantida a trajetória atual, o conjunto poderá gastar mais em capital do que produzir em fluxo de caixa livre até 2027. Além disso, compromissos futuros de arrendamento ligados sobretudo a centros de dados já ultrapassam um trilhão de dólares. Parte relevante dessa conta ainda não aparece integralmente como dívida nos balanços, pois será reconhecida à medida que as instalações entrarem em operação.


Isso não prova que a inteligência artificial seja uma bolha sem utilidade. A demanda por computação, automação, programação assistida, atendimento e análise de dados é real. O que mudou foi o padrão de avaliação. Crescimento de receita já não basta quando a infraestrutura consome volumes históricos de capital. As empresas terão de demonstrar utilização crescente, poder de precificação, eficiência energética e capacidade de reduzir o custo por tarefa. A era da promessa tecnológica está sendo substituída pela era da produtividade mensurável.


A China mudou a lógica da disputa

A pergunta sobre uma possível liderança chinesa nos modelos de IA não admite uma resposta binária. Em desempenho absoluto, empresas norte-americanas ainda ocupam posições de destaque em diversos testes de fronteira, contam com amplo acesso a capital e operam o maior ecossistema comercial de computação avançada. No entanto, a diferença de qualidade entre os melhores modelos dos Estados Unidos e da China encolheu drasticamente. Desde 2025, sistemas dos dois países alternam posições de liderança, e a distância entre o melhor modelo norte-americano e o melhor modelo chinês tornou-se pequena em comparação com o cenário observado poucos anos antes.


A transformação mais importante, porém, ocorre na distribuição. Laboratórios chineses como Alibaba, DeepSeek, Moonshot e Z.ai adotaram uma estratégia agressiva de modelos com pesos abertos, preços reduzidos e ciclos rápidos de lançamento. Essa abordagem permite que empresas, universidades e desenvolvedores instalem, adaptem e integrem modelos sem depender integralmente de uma única plataforma estrangeira. Em plataformas de distribuição de modelos, sistemas chineses já representam a maior parcela dos downloads recentes e superaram os norte-americanos em volume agregado. Esse avanço não significa que todo modelo chinês seja superior nem que a China tenha vencido todas as dimensões da corrida. Significa que o país encontrou uma forma de transformar restrições em vantagem competitiva. A dificuldade de acesso aos chips mais avançados estimulou uma busca intensa por eficiência de treinamento e inferência. Ao mesmo tempo, a publicação de pesos ampliou a adoção internacional e pressionou os fornecedores ocidentais a justificar preços mais altos. A competição deixou de ser apenas por quem apresenta o modelo mais poderoso. Passou a incluir quem entrega desempenho suficiente, pelo menor custo, com maior liberdade de implantação.


É importante distinguir modelos de código aberto de modelos com pesos abertos. A disponibilização dos pesos permite executar e modificar o sistema, mas não garante acesso aos dados de treinamento, ao processo completo de desenvolvimento ou a todos os componentes da arquitetura. Essa diferença importa para empresas que precisam avaliar propriedade intelectual, segurança, auditoria e conformidade. O rótulo aberto pode sugerir uma transparência que, na prática, varia bastante entre fornecedores.


A abertura também traz riscos

Modelos abertos oferecem soberania tecnológica, possibilidade de execução local, redução da dependência de fornecedores e maior controle sobre dados sensíveis. Para governos e empresas, essas vantagens podem ser decisivas. Contudo, a mesma liberdade facilita adaptações maliciosas, remove barreiras de uso e transfere para o operador a responsabilidade por atualizações, testes e proteção contra abusos.


Modelos fechados permitem monitoramento centralizado, correções rápidas e controles de acesso mais consistentes. Em contrapartida, aumentam a opacidade, a dependência contratual e o risco de aprisionamento em uma única plataforma. Também obrigam o cliente a confiar em políticas de dados, preços e disponibilidade definidas por terceiros. A disputa entre aberto e fechado não é apenas técnica. É uma escolha entre diferentes combinações de custo, controle, segurança e poder de mercado.


Por isso, afirmar que a China lidera a inteligência artificial exige definir o critério. Em modelos de pesos abertos, alcance global e relação entre preço e desempenho, a liderança chinesa tornou-se plausível e, em alguns segmentos, evidente. Na fronteira absoluta, na infraestrutura de computação, na confiança de grandes clientes e nos mecanismos de segurança, a vantagem continua dividida. O quadro mais preciso é o de uma corrida multipolar em que a China já não é uma seguidora distante.


A Argentina saiu da emergência, mas não do risco

A terceira questão é econômica e institucional. A Argentina está no caminho certo? Os indicadores mostram uma estabilização real, mas ainda insuficiente para declarar uma vitória definitiva. Em junho de 2026, a inflação ao consumidor ficou em 1,9 por cento no mês, acumulou 16,8 por cento no primeiro semestre e atingiu 33,5 por cento em doze meses. Para padrões internacionais, o nível anual continua elevado. Para um país que viveu uma aceleração inflacionária extrema, a mudança é substancial.


O ajuste fiscal também permanece como o principal pilar do programa. Apesar de um déficit mensal em junho, associado a efeitos sazonais, ao calendário tributário e ao pagamento de benefícios, o setor público encerrou o primeiro semestre com superávit primário equivalente a cerca de 0,6 por cento do produto interno bruto e superávit financeiro próximo de 0,1 por cento. Essa disciplina reduziu a necessidade de financiamento monetário e ajudou a reconstruir alguma previsibilidade. A economia cresceu 4,4 por cento em 2025, depois da contração anterior, e a projeção internacional para 2026 indica expansão próxima de 3,5 por cento. O país também passou a atrair mais investimentos para energia, mineração e agricultura, enquanto a produção de petróleo e gás em Vaca Muerta fortaleceu as exportações. A acumulação de reservas melhorou e a percepção de risco soberano recuou em relação aos momentos mais críticos.


Entretanto, a recuperação é desigual. O desemprego chegou a 7,8 por cento no primeiro trimestre, a indústria manufatureira voltou a apresentar retração e o crescimento recente concentrou-se em setores intensivos em recursos naturais, mas menos capazes de absorver grandes contingentes de trabalhadores. Para muitas famílias, a estabilização dos preços ainda não se converteu plenamente em renda disponível, emprego formal ou acesso mais barato ao crédito.


Também permanece o desafio externo. A Argentina precisa ampliar reservas, refinanciar vencimentos relevantes e demonstrar que consegue atravessar 2027 sem voltar a depender de improvisos cambiais ou monetários. A proposta de limitar por lei o financiamento do Tesouro pelo banco central é um passo institucional importante, mas sua eficácia dependerá da aprovação, da execução e da capacidade de resistir a futuras mudanças políticas. Um programa econômico só se torna duradouro quando deixa de depender exclusivamente da vontade do governo que o iniciou.


O caminho certo exige resultados amplos

A conclusão mais responsável é que a Argentina está em uma direção macroeconômica mais consistente do que aquela observada antes do atual programa, mas ainda não chegou a uma situação de normalidade. A queda da inflação, o equilíbrio fiscal e a retomada do crescimento são conquistas concretas. A fragilidade das reservas, a dívida futura, o desemprego e a concentração setorial mostram que a segunda etapa será mais difícil do que a primeira.


As três histórias tratam, no fundo, do mesmo problema. As grandes empresas de tecnologia precisam provar que a inteligência artificial gera retorno superior ao custo de construí-la. A China precisa mostrar que sua vantagem em eficiência e abertura pode se converter em confiança, segurança e liderança sustentável. A Argentina precisa transformar estabilização fiscal em investimento produtivo, emprego e instituições permanentes.


A conta chegou para todos. A tecnologia não será julgada apenas por sua capacidade de surpreender, mas por sua capacidade de produzir valor. Os modelos não serão avaliados somente por testes, mas por custo, controle e adoção. E a política econômica não será medida apenas por indicadores financeiros, mas pela capacidade de melhorar a vida cotidiana sem recriar os desequilíbrios que provocaram a crise. O próximo ciclo será vencido menos por quem promete mais e mais por quem demonstra, com resultados verificáveis, que consegue pagar pelo futuro que está construindo.



Apresentou


Impostos, China e Milei

O debate tributário no Brasil, as mudanças regulatórias da China para estabilizar seus mercados e o xadrez eleitoral argentino convergem para um ponto comum: receitas extraordinárias e canetadas regulatórias ajudam a ganhar tempo, mas não substituem reformas consistentes e crescimento.Brasil: arrecadar mais já não resolve o essencialA carga tributária bruta brasileira alcançou patamar elevado em 2024, e o governo opera em 2025 com bloqueios de despesa para manter a meta fiscal. Ao mesmo tempo, avança a regulamentação da reforma tributária que cria a CBS (tributo federal) e o IBS (estadual/municipal), além do imposto seletivo. O texto que organiza a transição foi aprovado na comissão temática do Senado e seguiu ao Plenário. O objetivo declarado é simplificar, reduzir contencioso e melhorar o ambiente de negócios.No comércio eletrônico internacional, as regras foram endurecidas: compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação reduzido, com ICMS cobrado à parte (e, em alguns estados, majorado), enquanto valores acima desse teto pagam alíquota maior — desenho pensado para coibir a subfaturação e reduzir distorções. Há, porém, propostas em tramitação para aliviar parcialmente esse custo ao consumidor, o que mostra que a calibragem do sistema ainda está em disputa.Do lado do gasto, o governo mantém contingenciamentos para garantir a meta deste ano, enquanto para 2026 conta com medidas de revisão de renúncias e racionalização de despesas. O recado essencial do quadro fiscal é que “fazer caixa” com novos tributos tem efeito limitado num país cuja carga já é alta e onde a produtividade avança devagar. Sem melhora na qualidade do gasto, segurança jurídica e competitividade, o ganho de arrecadação tende a ser curto — e se converte em menor tração para o investimento privado.China: regras mais finas para um mercado mais estávelA China vem ajustando a arquitetura regulatória de capitais na tentativa de reduzir a volatilidade e atrair poupadores de longo prazo. Em 2025, entraram em vigor regras detalhadas para negociação programada nas bolsas de Xangai, Shenzhen e Pequim, e foram estabelecidas normas específicas para program trading no mercado de futuros, com ênfase em transparência, reporte prévio e limites a condutas anômalas típicas de alta frequência. Em paralelo, o regulador abriu consulta para cortar taxas cobradas na distribuição de fundos, com a finalidade de baratear custos ao investidor e alongar prazos de aplicação.Há, ainda, intervenções pontuais que mostram o fio condutor de “reduzir riscos e domar excessos”: orientação para que seguradoras direcionem recursos adicionais à renda variável e sinais de cautela com a tokenização de ativos no exterior. O resultado prático é um ambiente em que IPOs, operações alavancadas e estratégias quantitativas convivem com uma malha de salvaguardas mais densa — menos “tranco” no curto prazo, mais previsibilidade para poupança doméstica e capitais estrangeiros que operam via Stock Connect.Argentina: Milei ganha fôlego, mas enfrenta prova decisivaA inflação mensal recuou para patamar baixo em agosto e a taxa interanual cedeu substancialmente, enquanto a pobreza no primeiro semestre recuou ante o fim de 2024. Esses indicadores dão algum fôlego político ao governo, mas a situação social continua delicada e a economia, frágil.Do lado financeiro, Washington sinalizou apoio explícito com uma negociação de linha de swap em grande escala e outras ferramentas de suporte, o que ajudou a melhorar preços de ativos locais no curto prazo. Esse vento de cauda, porém, depende de condições e de governabilidade: as eleições legislativas de 26 de outubro serão um divisor de águas para a capacidade do Executivo de avançar com reformas e, principalmente, para sustentar a normalização cambial e reduzir o prêmio de risco. Reveses eleitorais provinciais recentes e ruídos políticos aumentam a incerteza.O fio comum: tempo comprado não é tempo ganhoBrasil, China e Argentina adotaram respostas que aliviam pressões imediatas — arrecadação extraordinária, regulação pró‑estabilidade, respaldo externo. O teste decisivo, entretanto, está nos fundamentos: simplificação tributária acompanhada de gasto público mais eficiente e previsível; regras de mercado que contenham distorções sem asfixiar liquidez e inovação; e reformas que aumentem produtividade e investimento. Sem isso, “mais imposto”, “mais regra” ou “mais apoio” funcionam como analgésicos: diminuem a dor, mas não curam a doença.

Dívida sob tensão global

Três movimentos que pareciam pertencer a histórias separadas passaram a formar um único retrato do mercado global. O Brasil discute qual é a medida mais adequada de sua dívida pública. O Japão e os Estados Unidos entram no mercado de câmbio para conter a queda do iene. Ao mesmo tempo, os juros de longo prazo sobem com violência nas maiores economias, mesmo quando parte da curva curta começa a imaginar alguma moderação do aperto monetário. O elo entre os três episódios é o preço da confiança. Governos muito endividados continuam capazes de se financiar, mas o mercado exige uma remuneração cada vez maior para carregar riscos fiscais, inflacionários e políticos por décadas. A expressão dívida real do Brasil chama atenção, mas pode induzir a uma conclusão equivocada. Não existe uma única cifra secreta que substitua todas as demais. Existem conceitos distintos, construídos para responder a perguntas diferentes. O ponto relevante não é escolher o número mais conveniente, e sim compreender o perímetro de cada cálculo, o custo efetivo da dívida e a velocidade com que esse custo se transforma em nova dívida. A dívida muda conforme a régua Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral calculada pela metodologia nacional alcançou 81,9 por cento do Produto Interno Bruto, equivalentes a 10,8 trilhões de reais. Essa medida reúne o Governo Federal, o INSS e os governos estaduais e municipais. No mesmo mês, a Dívida Líquida do Setor Público ficou em 68,5 por cento do PIB, ou 9 trilhões de reais, porque desconta ativos financeiros do setor público. Há ainda a Dívida Pública Federal administrada pelo Tesouro Nacional. Seu estoque chegou a 9,3 trilhões de reais em junho. Ela não é idêntica à dívida bruta do governo geral, pois cobre outro conjunto de obrigações. A comparação direta entre essas três cifras, sem explicar o que cada uma inclui, produz mais ruído do que informação. Pelo critério internacional mais abrangente, a projeção para a dívida bruta do governo geral brasileiro chega a 97,8 por cento do PIB em 2026. A diferença em relação à métrica nacional decorre principalmente da inclusão de títulos do Tesouro mantidos no balanço do Banco Central e não utilizados em operações compromissadas. Não se trata de descobrir uma dívida clandestina. Trata-se de consolidar de outra forma os compromissos existentes e tornar a posição brasileira comparável à de outros países. A dívida bruta é especialmente útil para avaliar necessidades de refinanciamento e exposição a juros. A dívida líquida ajuda a observar o balanço patrimonial depois da dedução de ativos. O estoque administrado pelo Tesouro mostra a estrutura dos títulos que precisam ser rolados. Nenhum desses indicadores deve ser isolado. Uma análise responsável precisa olhar os três, além dos passivos contingentes, dos vencimentos e da qualidade dos ativos usados para reduzir a dívida líquida. O problema central está nos juros O dado mais preocupante não é apenas o tamanho do estoque, mas o custo de carregá-lo. Nos doze meses encerrados em junho, os juros nominais do setor público somaram 1,1605 trilhão de reais, o equivalente a 8,8 por cento do PIB. Um ano antes, essa despesa estava em 7,41 por cento do PIB. O déficit nominal, que combina o resultado primário com os juros, chegou a 1,3178 trilhão de reais, ou 9,99 por cento do PIB.   A diferença entre o déficit primário de 1,19 por cento do PIB e o déficit nominal próximo de 10 por cento mostra onde está a pressão. O governo ainda gasta mais do que arrecada antes dos juros, mas é a conta financeira que transforma um desequilíbrio administrável em uma dinâmica explosiva. No acumulado de 2026 até junho, a incorporação de juros acrescentou 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida bruta. As emissões líquidas adicionaram outro 1,3 ponto, enquanto o crescimento nominal do PIB reduziu a relação em 2,7 pontos. Essa composição também explica por que uma redução lenta da taxa básica não produz alívio imediato. Quase metade da Dívida Pública Federal estava ligada à Selic em junho, com participação de 49,32 por cento. Títulos pós-fixados facilitam a captação quando os investidores evitam prazos longos, mas transferem para o Tesouro grande parte do risco de os juros permanecerem elevados. A proteção oferecida ao comprador transforma-se em sensibilidade fiscal para o emissor.O Brasil não enfrenta o modelo clássico de crise externa observado em países que acumulam grande dívida em moeda estrangeira. Aproximadamente 4 por cento da dívida federal está vinculada a moedas externas. O país dispõe de reservas cambiais, mercado doméstico amplo, capacidade tributária e um regime de câmbio flexível. Esses fatores reduzem o risco de uma ruptura imediata. Eles não eliminam, porém, o risco de empobrecimento gradual provocado por juros reais altos, menor investimento, crescimento fraco e aumento contínuo da parcela do orçamento destinada ao serviço da dívida. A matemática exige mais do que metas A trajetória da dívida depende de uma relação simples e implacável. Quando o custo médio do financiamento supera o crescimento nominal da economia, o governo precisa produzir superávits primários maiores apenas para impedir que a relação entre dívida e PIB continue subindo. Quanto mais elevada a taxa exigida pelo mercado, maior o esforço fiscal necessário. Quanto menor o crescimento, mais difícil se torna estabilizar o estoque. Os cenários para os próximos anos mostram como pequenas diferenças de hipótese produzem trajetórias muito distintas. Pela definição internacional e sob um cenário que já pressupõe medidas fiscais adicionais, a dívida bruta pode alcançar cerca de 105 por cento do PIB em 2031 e estabilizar-se perto de 106 por cento em 2035. Essa estabilização depende de providências equivalentes a aproximadamente 1,3 por cento do PIB que ainda não estão integralmente detalhadas. Na metodologia nacional, o cenário oficial associado às metas fiscais projeta um pico de 87,8 por cento do PIB em 2029, seguido de redução para 84,1 por cento em 2035. As expectativas privadas compiladas no mercado são menos benignas e apontam para uma dívida próxima de 100 por cento do PIB em 2035, sem estabilização clara. A distância entre os cenários não é uma disputa meramente contábil. Ela revela divergências sobre juros, crescimento, receitas, controle de despesas e cumprimento efetivo das metas. O arcabouço fiscal continua oferecendo uma referência, mas exceções legais, deduções autorizadas e despesas retiradas das metas tornam a leitura menos transparente. Uma meta pode ser formalmente cumprida e, ainda assim, a necessidade de financiamento permanecer elevada. Precatórios, gastos extraordinários e despesas autorizadas fora dos limites não desaparecem economicamente porque receberam tratamento jurídico distinto. Se exigem caixa, acabam influenciando emissões, dívida ou redução de outros gastos. A curva americana enviou um aviso O segundo foco de tensão está nos Estados Unidos. No fim de julho, o banco central norte-americano manteve os juros de curto prazo inalterados, apesar de três votos favoráveis a uma elevação. A reação inicial foi de queda nas taxas curtas. Pouco depois, porém, os títulos longos passaram a ser vendidos com força. O rendimento do título do Tesouro de trinta anos chegou a 5,27 por cento em 31 de julho, o maior nível em dezenove anos, e permaneceu em 5,23 por cento no início de agosto. Esse movimento é mais importante do que uma oscilação diária. A curva ficou mais inclinada porque o mercado passou a aceitar a possibilidade de juros menores ou estáveis no curto prazo, mas exigiu um prêmio maior para financiar o governo por vinte ou trinta anos. A mensagem é incômoda. Um banco central controla diretamente a taxa de curtíssimo prazo, mas não consegue ordenar que investidores aceitem qualquer remuneração na ponta longa. Os juros longos incorporam a inflação esperada, a taxa real de equilíbrio, o volume de títulos a ser absorvido, o risco de perdas e o chamado prêmio de prazo. Quando déficits elevados se combinam com emissões crescentes e dúvidas sobre a disposição política de controlar a inflação, esse prêmio aumenta. O resultado pode ser um aperto financeiro mesmo sem nova alta da taxa básica. Hipotecas, crédito corporativo, infraestrutura, avaliação de ações e custo de capital dependem da ponta longa. O fenômeno não está restrito aos Estados Unidos. A necessidade de financiamento soberano atingiu níveis recordes em escala global. Ao mesmo tempo, bancos centrais reduzem gradualmente suas carteiras, fundos de pensão encurtam a duração média de seus investimentos e compradores tradicionais exigem maior compensação. A era em que enormes volumes de dívida podiam ser emitidos sem alterar significativamente o custo parece ter terminado. Para o Brasil, o título longo norte-americano funciona como uma referência mundial. Se um papel do governo dos Estados Unidos com vencimento em trinta anos paga mais de 5 por cento, ativos brasileiros precisam oferecer remuneração adicional suficiente para compensar risco cambial, inflação, volatilidade e incerteza fiscal. É por isso que um choque em Washington chega rapidamente à curva de juros brasileira, mesmo quando não há notícia doméstica decisiva. A intervenção no iene expõe outra fragilidade O terceiro sinal veio do mercado de câmbio. Em 31 de julho, o Ministério das Finanças do Japão comprou ienes em coordenação com o Tesouro dos Estados Unidos para conter movimentos considerados excessivos e desordenados. A moeda japonesa havia se aproximado de 164 ienes por dólar, seu menor valor em quatro décadas. Depois da ação, recuperou parte das perdas, mas a operação deixou claro que a fraqueza cambial já era vista como um risco de alcance internacional. A mecânica parece simples. A autoridade vende uma moeda de reserva e compra ienes, criando demanda imediata pela moeda japonesa. O efeito pode ser forte quando surpreende posições especulativas, mas tende a desaparecer se os fundamentos permanecerem inalterados. Intervenção cambial compra tempo. Ela não substitui coerência entre política monetária, política fiscal e expectativas de inflação. A operação foi incomum porque envolveu diretamente Washington. Informações do mercado indicam que a parcela norte-americana utilizou euros para comprar ienes, evitando a venda direta de dólares e reduzindo a interpretação de que os Estados Unidos pretendiam enfraquecer sua moeda de maneira generalizada. O Japão também anunciou a intenção de recorrer futuramente à linha de recompra para autoridades monetárias estrangeiras, conhecida pela sigla FIMA. Esse mecanismo permite obter dólares temporariamente oferecendo títulos do Tesouro norte-americano como garantia, sem precisar despejar esses papéis no mercado. Esse detalhe liga o câmbio aos juros longos. O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos públicos dos Estados Unidos, com uma carteira próxima de 1,14 trilhão de dólares. Se precisasse vender uma parcela relevante dessas reservas para financiar intervenções, poderia pressionar ainda mais os rendimentos norte-americanos. A linha de recompra reduz a necessidade de venda imediata e atua como uma proteção contra desorganização no mercado de títulos. O Japão também enfrenta sua própria alta de juros longos. No leilão de 4 de agosto, o título público de dez anos foi aceito com rendimento de até 2,9 por cento, nível impensável durante o período de juros próximos de zero. Os papéis de trinta anos passaram a negociar perto de 4 por cento. O governo e o banco central estão presos a um dilema. Normalizar a política monetária pode sustentar o iene e conter a inflação importada, mas eleva o custo de financiamento de uma dívida pública gigantesca. Manter condições muito frouxas reduz a pressão imediata sobre o Tesouro, porém enfraquece a moeda e encarece energia e alimentos importados. Do Japão ao Brasil, o risco viaja pela renda fixa O mercado japonês importa para o Brasil porque investidores, seguradoras e fundos de pensão do país mantêm grandes posições em títulos estrangeiros. Quando os rendimentos domésticos sobem, parte desse capital ganha incentivo para voltar ao Japão. Menor demanda japonesa por títulos norte-americanos pode elevar os juros nos Estados Unidos. Juros norte-americanos mais altos, por sua vez, reduzem a atratividade relativa de ativos emergentes e aumentam o custo exigido dos títulos brasileiros. Esse mecanismo não precisa produzir uma fuga abrupta para causar dano. Basta que o comprador marginal exija uma taxa maior. O Tesouro brasileiro, ao encontrar resistência para vender títulos prefixados ou indexados à inflação em prazos longos, passa a oferecer mais papéis ligados à Selic. A rolagem continua, mas a composição se deteriora. O risco que o investidor não deseja carregar por dez anos retorna ao balanço do governo na forma de dívida pós-fixada. A pressão também chega pelo câmbio. Uma alta persistente dos juros norte-americanos tende a fortalecer o dólar e a reduzir liquidez para economias emergentes. Se o real perde valor, combustíveis, insumos e bens importados ficam mais caros. A inflação esperada aumenta, o banco central ganha menos espaço para reduzir a Selic e o custo da dívida demora mais a cair. Forma-se um circuito em que risco fiscal, juros, câmbio e inflação se alimentam mutuamente. É por isso que não basta olhar para a próxima decisão de política monetária. A taxa básica brasileira ainda se encontrava na faixa de 14 por cento no início de agosto, mas o verdadeiro teste está na capacidade de reduzir também a remuneração exigida nos vencimentos mais longos. Um corte na ponta curta pode coexistir com alta na ponta longa quando o mercado interpreta o alívio como prematuro ou considera insuficiente o ajuste fiscal. Não há colapso imediato, mas o conforto acabou A conclusão não é que o Brasil esteja prestes a deixar de pagar sua dívida. O país emite majoritariamente em moeda própria, possui uma base doméstica de investidores, reservas internacionais e instrumentos para administrar vencimentos. Também mantém um colchão de liquidez relevante. Essas características oferecem tempo e capacidade de reação que muitas economias em crise não possuem. A conclusão correta é menos dramática e mais séria. O Brasil está pagando um preço crescente para preservar essa estabilidade. Juros nominais equivalentes a quase 9 por cento do PIB, dívida bruta em alta, dependência maior de papéis pós-fixados e metas cercadas por exceções reduzem a margem de manobra do próximo ciclo econômico. Uma recessão, um novo choque de petróleo, uma desvalorização cambial ou outra alta dos juros globais encontraria o setor público em posição mais vulnerável. A resposta sustentável exige previsibilidade plurianual. Isso significa controlar o crescimento das despesas obrigatórias, revisar gastos tributários, reduzir exceções, apresentar medidas fiscais com valores e prazos verificáveis e reconstruir a demanda por títulos de prazo mais longo. Também significa evitar a ilusão de que receitas extraordinárias resolvem um problema permanente. O mercado distingue arrecadação recorrente de ganhos temporários e cobra essa diferença na taxa. Os episódios do Brasil, do iene e dos juros longos contam, portanto, a mesma história. O dinheiro deixou de ser barato, a dívida voltou a competir por capital e a ponta longa da curva tornou-se um referendo diário sobre credibilidade. A dívida real não é apenas o número publicado em uma tabela. É o conjunto de pagamentos futuros que a sociedade terá de financiar, a taxa que os investidores exigem para aceitá-los e a confiança de que o Estado conseguirá honrar esses compromissos sem inflação, repressão financeira ou sucessivas mudanças de regra.Enquanto essa confiança não melhorar, cortes graduais de juros poderão aliviar o presente sem resolver o futuro. E é justamente no futuro, representado pelos títulos de dez, vinte e trinta anos, que o mercado está cobrando a conta com maior rigor.

A 'Evergrande' dos carros?

Uma declaração contundente do fundador da Great Wall Motor (GWM), Wei Jianjun, acendeu um alerta vermelho no maior mercado automotivo do mundo. Em entrevista concedida no fim de maio de 2025, o executivo afirmou que o setor automotivo da China “já tem sua própria ‘Evergrande’” — referência ao conglomerado imobiliário cuja implosão simboliza excesso de alavancagem, expansão desenfreada e riscos sistêmicos. Ele não citou nomes. A fala bastou para deflagrar um debate público sobre dívidas, transparência e a sustentabilidade da atual guerra de preços entre montadoras.Desde então, a reação corporativa foi imediata. A maior fabricante de veículos elétricos do país repudiou especulações de que seria o alvo do comentário, classificou a analogia como infundada e afirmou que buscará responsabilização contra boatos. Outras montadoras pediram foco em gestão de riscos, enquanto investidores e fornecedores passaram a vasculhar balanços à procura de sinais de estresse financeiro.Guerra de preços: incentivos agressivos e margens comprimidasO pano de fundo da polêmica é um ambiente de descontos históricos, que se intensificou na última semana de maio, quando modelos populares foram reposicionados com promoções agressivas. As ações de fabricantes listadas despencaram na esteira dos anúncios, refletindo o temor de que a disputa por volume esteja corroendo margens e pressionando toda a cadeia de suprimentos. Analistas já falam em “destruição de valor” se a competição abaixo de custo persistir.Capacidade demais, demanda de menosDepois de anos de expansão acelerada, a indústria convive com sobrecapacidade e desaceleração do consumo doméstico. O mercado ficou superlotado de marcas e lançamentos, enquanto subsídios encolheram e o crédito encareceu. Parte dos fabricantes mais frágeis opera com capital de giro negativo, atrasando pagamentos a fornecedores e alongando prazos de aceitação de mercadorias — um círculo vicioso que fragiliza o ecossistema.Sinais duros de estresse: reestruturações e “contabilidade criativa”Em 2025, um dos nomes mais discutidos do segmento entrou formalmente em recuperação judicial, após meses de caixa apertado, lojas fechadas e queda brusca nas vendas. Outro ex‑queridinho das startups, que já havia solicitado pré‑reorganização em 2023, avançou na reestruturação e anunciou planos para retomar produção sob novo controlador. Paralelamente, vieram à tona práticas de antecipação artificial de vendas por meio de registros e seguros antes da entrega ao cliente — expediente que inflou números comerciais e agora é alvo de investigação e reprimendas setoriais.Resposta oficial: freios no “vale‑tudo”Diante do quadro, reguladores intensificaram ações para coibir propaganda enganosa e difamações no setor, além de abrirem consulta para atualizar a Lei de Preços com restrições explícitas a vendas abaixo de custo para eliminar concorrentes. A associação nacional de montadoras, por sua vez, articulou um código de conduta que padroniza a aceitação de mercadorias em até três dias e o pagamento a fornecedores em, no máximo, 60 dias — tentativa de aliviar a tesouraria da cadeia e reduzir o risco de calotes.A válvula de escape externa ficou mais estreitaA estratégia de “exportar o excedente” esbarrou em barreiras maiores. A União Europeia aplicou medidas compensatórias definitivas sobre importações de elétricos feitos na China, com alíquotas diferenciadas por grupo industrial, além do direito aduaneiro padrão. Nos Estados Unidos, o governo elevou a tarifa sobre veículos elétricos chineses para 100% e estuda impor limitações adicionais a software e conectividade embarcados, o que pode travar ainda mais o acesso ao mercado.Há, afinal, uma “Evergrande” no setor?A analogia de Wei Jianjun mira menos um alvo específico e mais um conjunto de comportamentos: endividamento elevado, crescimento a qualquer preço e dependência de práticas comerciais insustentáveis. O recado foi entendido: sem disciplina financeira e sem uma competição mais ordenada, a combinação de sobrecapacidade, margens exíguas e confiança abalada pode precipitar novas quebras. A expectativa entre líderes do setor e analistas é de consolidação acelerada até meados da década — com poucos grupos capitalizados sobrevivendo à depuração. Em outras palavras, se a “Evergrande automotiva” já existe, o mercado e os reguladores correm para impedir que o estouro contamine todo o ecossistema.